Era uma vez uma menina….

ERA UMA VEZ UMA MENINA..

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Era uma vez uma menina que nasceu num dia frio de inverno em uma cidade no sul do Brasil. Era a primeira filha de um casal recém-casado e teve o seu nome definido em homenagem ao mês em que escolheu vir ao mundo. Ela estava prevista para agosto e se antecipou para julho.

Era uma vez uma menina que gostava de mandar. Nas brincadeiras com os amigos, sempre tomava frente e acabava como a professora, a mãe, a dona da loja ou a organizadora dos desfiles. Aquela que maquiava, escolhia as roupas e dizia a hora e o quê todos deveriam fazer. Com esse seu jeito e porque sempre terminou rapidamente os exercícios em sala, foi escolhida como ajudante da professora e assim, o faz até os dias de hoje. Ela é a líder da sua turma na faculdade.

Era uma vez uma menina que sempre gostou de escrever. Poesias, histórias, livros, cartas, bilhetes. O tempo nunca se demora se lhe derem um pedaço de papel e uma caneta. Em poucas linhas, ela cria infinitos, transborda pensamentos e se compreende. Ou pelo menos, acha que consegue.

Era uma vez uma menina que era a típica irmã mais velha. Admirada, imitada e sem muita paciência. Era também o elo entre os pais. Muito família, queria que todos se sentissem bem e fazia o possível e o impossível para manter a harmonia. Mais tarde, descobriria que por muito tempo ocupou o lugar errado.

Era uma vez uma menina que teve a tristeza como sua fiel companheira por muito tempo. Ela não sabia exatamente como e nem o porquê, mas degustava uma melancolia como ninguém e talvez por conta dessa parceria, conseguiu seguir adiante.

Era uma vez uma menina que nunca namorou mais de três meses consecutivos. Alguns a chamavam de saidinha, de namoradeira, mas talvez a vida só estivesse lhe reservando a cereja do bolo, o melhor relacionamento, para o momento em que ela estivesse pronta e disponível para vivê-lo.

Era uma vez uma menina que nunca desistiu de tentar se encontrar. Uma menina que hoje sente orgulho de ter sido chamada de ardilosa e de ter ido morar fora do Brasil sozinha, sem conhecer ninguém. Metida que só ela, sempre deu seu jeito para conseguir aquilo que queria.

Era uma vez uma menina que por muitos anos, viveu um paradoxo entre ser quem ela achava que era, quem ela fingia que era para agradar quem tanto amava e quem ela queria ser.

Era uma vez uma menina que se transformou numa mulher, sem nem notar. Não que esse processo tenha acontecido do dia para a noite, mas foi assim, de repente que ela se percebeu. Passou tanto tempo dentro do casulo, que levou alguns anos para reparar nas suas asas de borboleta. Grandes e coloridas, como a das duas que ela tem tatuadas na perna direta.

Era uma vez uma mulher que descobriu seu potencial, sua força e resgatou sua alma, que estava esquecida entre os destroços de um passado que passou. Era uma vez uma mulher que sambou na cara da sociedade e voltou para a sala de aula, mesmo quando todos diziam que era hora de se inserir no mercado de trabalho e parar de “inventar moda”.

Era uma vez uma mulher que mesmo quando escorrega na insegurança ou quando quase deixa sua autoestima lhe escapar por entre os dedos, não recua e não arria. Até dá uma choradinha escondida no travesseiro, mas quando acorda, desperta e levanta. Não só abre os olhos, mas abre a alma e a coloca a postos, pronta para lhe defender dos predadores que vivem camuflados por aí.

Era uma vez uma mulher que construiu uma família maravilhosa. Exemplo, no sentido de que reconhece as suas limitações e convive bem com as diferenças. Uma mulher que descobriu na confusão da maternidade repentina, um caminho para explorar o seu dom e, finalmente, fazer com que ele tocasse a vida de outras pessoas.

Era uma vez uma menina, uma mulher, que tem um coração imenso, mas uma capacidade de reflexão gigante também. Alguém que adora falar, mas que também aprendeu a ouvir e decidiu fazer dessa escuta, aquilo que ela quer fazer para a vida toda.

Hoje, agradeço imensamente essa menina que fui e que, de alguma maneira, ainda sou. Nesses vinte e oito anos de existência, pude experimentar as dores e os sabores de ser eu mesma. Primogênita, mandona, líder, escritora, melancólica, ardilosa, namoradeira, encrenqueira, inquieta, insegura, desfocada, chorona. Aprendi, não sem uma dose de sofrimento, que muito mais importante do que todos esses adjetivos que me foram atribuídos e que acabei por incorporar, é o sentido que EU dou a eles.

Amanhã, dia 18, é o dia do réveillon da minha alma e eu desejo parabéns para mim.

E que venha mais um ano e mais “era uma vez…”.

Texto originalmente publicado, em 17/07/14, AQUI.

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As fases da vida

As fases da vida

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Trabalhando como coach e conversando com pessoas próximas, percebo como muitas vezes, elas fantasiam que não estão fazendo “nada de importante na vida”, simplesmente, porque não estão realizando grandes objetivos. Então, sempre me pergunto: Por que nos sentimos mal quando nos julgamos estagnados? Que obrigação é essa de estarmos sempre produzindo algo, aparentemente, grandioso?

É claro que como uma otimista em exercício e como coach e estudante de Psicologia, acredito e trabalho na construção de objetivos grandes e na busca de sentidos para a vida, daqueles que nos desafiam e nos tiram da mal falada “zona de conforto”, mas também acredito e confio nos momentos de transição e em sonhos que possam parecer “pequenos”, a princípio. Sobre isso até já escrevi uma mensagem que diz assim: “Conforta e anima lembrar que toda árvore, até a mais frondosa e centenária, um dia foi apenas uma pequena semente”. Semente que foi plantada e regada e regada e cuidada e regada…entende?

Costumamos olhar para grandes construções e esquecer do tempo e do processo que envolveu cada etapa da sua realização. E assim também acontece com a nossa vida. Sonhos demandam cuidado, espera, um saber lidar com as intempéries, imprevistos e as necessidades de cada estação. A semente não vira uma árvore da noite para o dia e se queremos, de fato, plantar um sonho e colher a realização dele, precisamos aprender a respeitar as fases da vida. Saber aceitar e esperar. Cuidar e regar.  O sonho, às vezes, pode parecer pequeno e insignificante ou, em alguns momentos do processo de amadurecimento dele, pode parecer que você está estagnado, mas não se deixe enganar e conseguinte, desanimar.

Mas por que estou falando sobre isso, hoje? Desde criança, sou movida pela escrita e sempre tive como sonho, escrever num jornal impresso. Aos 17 anos, meu desejo era cursar Jornalismo, mas por circunstâncias da vida, acabei seguindo outros caminhos. Porém, quando temos um sonho, por mais que nos afastemos por um tempo, nossas escolhas dão um jeito de nos aproximar dele, novamente. Mesmo tendo cursado Direito e como opção de segunda graduação, Psicologia, eis que há um ano, surgiu a oportunidade de escrever por aqui. E essa foi uma das minhas pequenas sementes que plantei nos últimos tempos. Semente que germinou e que agora, precisa crescer por outros espaços. Fui muito realizada nesse período em que colaborei no jornal e jamais esquecerei a oportunidade que me foi dada.

Às vésperas do dia das mães, iniciei minha colaboração no Jornal Folha do Oeste e às vésperas do dia das mães, um ano depois, encerro esse ciclo.

Sigo escrevendo, plantando e cuidando dos meus sonhos. Torço para que você também cuide dos seus.

Texto publicado originalmente no Jornal Folha do Oeste em 13/05/17

O que é Coaching?

O que é Coaching?

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Minha logo linda, criada por uma amiga!

Muitas pessoas estão vindo me perguntar o que é Coaching e mesmo já tendo publicado um texto sobre isso há um tempo, resolvi escrever um novo para abranger todas as questões que estão me perguntando e atualizar a minha concepção sobre esse processo, pouco mais de 2 anos de estar formada e de ter escrito esse primeiro texto.

Vou começar contanto só um pouco de como cheguei aqui e depois falo do Coaching em si.

Confesso que antes de aparecer a oportunidade de fazer a formação em Coaching, esse nunca foi um objetivo meu. Eu mesma fiz um processo em 2012, que foi bastante transformador na minha vida, mas nunca pensei em mudar do papel de coachee (que é como se chama o “cliente” no Coaching) para o papel de coach (que é quem conduz as sessões). Então, como foi que cheguei até aqui?

Depois que eu participei como palestrante no CONAEI (um congresso online) em maio de 2014, a convite da Paula Quintão, senti falta de um título para me apresentar, até que eu conclua o curso de Psicologia. Porque há tempos eu escrevo sobre a vida, sobre a importância de refletir, sobre escolhas, mas quem sou eu para falar sobre isso? Sim, títulos não garantem quase nada na vida de uma pessoa, mas pra mim, ficava essa falta. E eu também sei que esse questionamento do “Quem sou eu para…” é reflexão para a vida toda, mas naquele momento, eu sentia falta de um registro mais formal daquilo que eu vinha fazendo de forma um tanto “natural”.

Bom, por “coincidência”, a Dulce Magalhães, filósofa, coach, palestrante, escritora e consultora de negócios, que é amiga da minha mãe (e que infelizmente, fez sua passagem no começo desse ano) resolveu ministrar uma formação de Coaching para compartilhar toda sua bagagem de conhecimento. Como eu já era super fã dela, tanto como profissional (ela é autora de vários livros que adoro) quanto como pessoa (ela é inexplicavelmente iluminada e aplica na sua própria vida aquilo que acredita e compartilha) e como minha mãe se ofereceu para investir na minha formação (ela também fez comigo, assim como a pessoa que foi minha coach lá em 2012), mais do que aceitei a oportunidade porque era o que eu julgava importante no momento e estava logo ali ao meu alcance.

Assim, em outubro de 2014, me formei como coach, inclusive com certificação internacional do Global Accreditation Board for Coaching (dado depois de um processo aonde fiz 3 atendimentos de Coaching e mandei todo o relatório das sessões), que me permite atuar internacionalmente e que me classificou como membro do corpo global de Coaches profissionais. Porém, como em seguida tive meu segundo filho e estava no meio da minha segunda graduação, acabei não exercendo a formação. Até esse ano de 2017, quando voltei a pensar no assunto. Ao retornar para a terapia no final de 2016, tocamos em algumas questões que eram totalmente bloqueadas pra mim. Reconhecer meu potencial e ganhar dinheiro com isso, era uma delas. Eu não me sentia merecedora, capaz e não me imaginava cobrando por uma sessão, por exemplo. Junto com isso, meu marido veio com a ideia de eu usar uma sala comercial que meus pais tem e que estava vazia, pra fazer minhas tão sonhadas rodas de mães, reuniões políticas, escrever… Enfim, movimentar o espaço e porque não, a minha vida! Aí uma coisa foi se juntando com a outra, eu pensei nesse espaço e senti vontade de começar a atender como coach, soltei essa possibilidade no blog, duas seguidoras já me procuraram, eu comecei a amadurecer a ideia, trabalhei isso com mais atenção na terapia, fiz uns exercícios mentais (repetir “eu me permito” é um deles) e marquei a primeira sessão! Assim mesmo, em questão de dias, fiz um movimento que demorou anos pra acontecer. A sala ainda não estava pronta, o material também não e nem uma sequência de como eu conduziria o processo, mas eu marquei a sessão (dei o primeiro passo) porque precisava vencer o famoso impedimento do “quando a sala estiver pronta, eu começo” ou “quando eu ler todos os livros de Coaching e preparado o material mais top, eu começo”. Porque eu via que era algo que eu queria, que algo dentro de mim vinha pedindo isso, mas que “outro algo” me bloqueava e me provocava pânico só de pensar em dizer o valor de uma sessão ou do primeiro contato com alguém totalmente desconhecido.

Da primeira sessão, que aconteceu no dia 10 de abril, até agora, já foram mais alguns atendimentos e eu já tenho 8 coachees, no total. As que atendi já me deram um feedback muito positivo das movimentações que produzimos nas suas vidas e eu me sinto muito realizada em fazer parte disso. Claro que ainda tenho frio na barriga e provavelmente terei por um bom tempo, mas estou confiante e me capacitando cada vez mais para ter uma grande variedade de ferramentas que auxiliem nesses processos de mudanças que elas desejam promover nas suas vidas. Algumas pessoas me perguntam se depois que eu me formar em Psicologia, continuarei como coach e eu respondo que não sei. Venho aprendendo a traçar objetivos, mas não querer controlar tudo o que acontece. Por enquanto, estou muito bem assim e é no agora, que vou pensar. Continuo me dedicando à faculdade e tanto o que eu estudo me auxilia muito no Coaching (estimular a autonomia do outro, as singularidades, as influências dos sistemas), como os atendimentos vem enriquecendo meus estudos na Psicologia (escutar o outro, acessar seus sofrimentos…).

Agora, vamos ao que seria o Coaching. Se vocês procurarem em livros e na internet, encontrarão várias definições, mas basicamente, e da forma como eu entendo, Coaching é um processo que tem alguns objetivos como: facilitar a definição de propósitos com clareza e objetividade, apoiar o coachee a definir o que realmente é importante para ele, descobrir e desenvolver competências para a realização do que ele definir como propósitos, trabalhar as crenças que ele construiu sobre si mesmo e transforma-las em crenças que sustentem e apoiem as mudanças pretendidas e as que ele julgar necessárias. A minha formação trabalha em cima de 3 pilares: autoconhecimento, que seria você se conhecer, pensar suas forças e fraquezas, o que pode estar te impedindo de mudar, seus valores e critérios de decisão, autoestima, que seria a forma como você se avalia, como você se enxerga e o quanto acredita em si mesmo, e autoresponsabilização, que seria o quanto você se enxerga responsável e implicada naquilo que possa estar te incomodando. Falando assim, parece que é um processo fácil, objetivo e bonito, mas nem sempre é assim. Por vezes, é difícil olharmos para nós mesmos e mais, nos responsabilizarmos de alguma forma, pelas nossas escolhas. No Coaching, não são aprofundadas questões de cunho psicológico (e como estudante de Psicologia, sei quando estarei cruzando as fronteiras de competência). O coach apresenta ferramentas para que o coachee se planejar melhor, pense de forma mais clara sobre os seus objetivos e perceba capacidades e potencialidades que ele já tem e que, às vezes, não usa.

A maioria dos profissionais trabalha com pacotes fechados de sessões, mas como estou começando a atender agora, não consigo pensar num número fechado de sessões necessárias. Em geral, marco a primeira sessão e dali, a pessoa decide se está pronta e se deseja sessões semanais ou mensais. Também posso atender questões pontuais como pensar melhor sobre uma decisão específica, organizar um Life Plan….

Sobre o meu modo de trabalhar o Coaching… Acho que dentro de uma formação, você pode seguir por vários caminhos. Claro, se atendo aos princípios básicos e métodos, mas encontrando a sua forma de trabalhar. Assim, eu pretendo trabalhar com um Coaching não tão motivacional. Não pretendo “vender” felicidade e satisfação à qualquer custo.

E outra coisa importante de deixar clara, o coach não é um vidente e nem tem o poder de transformar a sua vida. Se você não estiver aberto, interessado e disponível, nenhuma pessoa, livro, curso ou viagem, te farão

Quando eu digo e repito que o meu processo em 2012 foi um divisor de águas na minha vida, até fico receosa porque pode parecer que foi tipo uma mágica. Mas não! Houve muito sofrimento, muitas fichas caindo, muitas lágrimas, eu me dedicava aos exercícios e queria aquela transformação. Minha coaching super questionava todas as minhas escolhas até perceber que elas eram genuínas e bem trabalhadas.

Espero ter sanado as possíveis dúvidas e deixado claro o que eu penso sobre o Coaching. Antes de qualquer manifestação, deixo claro que essa é só a minha visão! Não desconsidero outros pontos de vista, mas como esse é um texto escrito por mim, através da minha pessoa e não uma explicação geral sobre o que é o Coaching, esse é o máximo que posso fazer.

Como mãe, eu nunca!

Hoje, recebi um email dizendo que alguém tinha comentado uma postagem no meu antigo e extinto blog “Fala, Mãe!”. Eu nem sabia que o blog ainda estava ativo (porque uma vez, tornei a maioria dos blogs que eu já tive, privados), mas fiquei feliz de voltar e ler o que eu tinha escrito. O texto em questão era uma brincadeira que eu fiz relacionada àquela brincadeira (ou desculpa para beber) chamada “Eu nunca” e a maternidade.

Como ando de novo nessa pegada de #prontofalei (se é que algum dia deixei de estar) e como estamos organizando um evento, justamente, para falarmos sobre isso (pensem que o post tem quase 6 anos!!!!!), resolvi repostar o texto com breves alterações, já que graças às Deusas, eu evoluí e não concordo com algumas colocações da Juliana de 2011.

Então, lá vai. Pega a bebida aí (ou nem, porque do jeito que eu ando cansada, se eu beber álcool, capaz de apagar total) e bóra dar umas risadas.

Como mãe, eu nunca!

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Vamos brincar de “Eu nunca!”?

Quem nunca brincou de “Eu nunca!” cazamigas, valendo um copinho de álcool?? Hein?? Relaxem que apesar de, às vezes, falarmos de crianças aqui, o papo é sempre de adulta e para adultas (ou não). Então, proponho que vocês tirem a “vodega” de trás do armário, que é para as crianças não beberem achando que é água, e bebam comigo a cada atitude que vocês já tiveram nesse nosso complexo mundo da maternidade. Porque vamos combinar, os AA´s da vida que não me ouçam, mas que, às vezes, dá vontade de tomar um porre pra esquecer de tudo, dá, não dá? (o problema é a ressaca depois e quem vai aguentar as crianças)

E que comecem os jogos…

– Eu nunca andei de carro com o meu filho/a minha filha fora da cadeirinha… (agora bebe quem já andou, mesmo que tenha sido até a esquina pra criança não chorar porque o carro já está em movimento);
– Eu nunca amamentei só para que meu filho/minha filha parasse de chorar! (nessa, bebe quem já deu esse “cala boca meu amor”, mesmo sabendo que aquele choro não era fome e que a sua escolha pode se transformar num hábito, que depois “se voltará contra você mesma”);
– Eu nunca amaldiçoei o pai do meu filho/da minha filha pelo “simples” fato de ele ser homem numa sociedade machista, aonde alguns ainda acham ok não fazerem a sua parte;
– Eu nunca bebi bebidas alcoólicas e mesmo assim amamentei antes das 3 horas recomendáveis… (agora bebe filha, bebe por ter bebido naquela vez!);
– Eu nunca dei Tylenol ou um antialérgico para o meu filho/a minha filha, na intenção de que elx dormisse mais tranquilx e, consequentemente, eu também… (sei que parece sacanagem, mas quem teve filhxs com longas crises de cólicas, sabe do que eu estou falando);
– Eu nunca deixei meu filho/minha filha cagadx um tempo, mesmo sabendo que elx estava sujx, pelo simples fato de ter preguiça de comprar a briga da troca de fraldas! (quer ver quando elxs começam a querer correr durante a troca de fraldas! Vira, praticamente, um Vale-Tudo);
– Eu nunca dei um pirulito para o meu filho/a minha filha só pra elx parar de me incomodar em algum lugar público;
– Eu nunca mirabolei planos malévolos sobre trancar o meu filho/a minha filha, que não parava de chorar no banheiro dos fundos (aquele beeeem longe do quarto) só pra ficar um pouco em silêncio;
– Eu nunca me peguei pensando “o que eu fiz isso com a minha vida”? (essa é pesada mas bendita a mãe que reconhece a sua fraqueza e faz esse tipo de questionamento pra depois chegar na feliz conclusão de que não conseguiria viver sem elx!). Pensem que essa última eu escrevi há quase 6 anos!!! E ainda continuo insistindo nessa tecla!

E aí já estão bêbadas? Foi só uma brincadeirinha hein…

Beijo beijo

| A tristeza nos aproxima de nós |

A tristeza nos aproxima de nós

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Peguei a montagem de um post antigo porque ela me remete à essas várias Julianas.

Quando estamos num processo de psicoterapia, ou melhor, quando nos permitimos um mínimo de mergulho quando estamos vivendo esse processo, começamos a resgatar algumas lembranças de partes nossas que mesmo esquecidas de forma consciente, nos tornaram quem somos hoje.

O ano era 1999 e eu estava andando na rua perto da minha casa, voltando de alguma atividade extra da escola. A trilha sonora que tocava no meu discman era do CD da novela “Andando nas nuvens” e a música que eu não tirava do repeat, era True Colors, na voz do Phil Collins (as outras preferidas, eram “She´s All I ever had” do Ricky Martin e “Dust in the Wind” da Sarah Brightman).

Não lembro exatamente o porquê, mas lembro que estava vivendo um momento de extrema angústia (comum para os meus 13 anos). Dúvidas, incertezas e certa tristeza. Nesse caminho, cruzei com uma igreja (ecumênica) e resolvi entrar para me esconder um pouco e poder chorar em paz, literalmente. É essa lembrança que essa versão da música sempre me traz. Eu sentada na igreja com o discman no ouvido, chorando e colocando para fora aquilo que tanto me doía.

Mas por que tenho lembrado disso? Um pouco porque dia desses, ao ouvir essa música, parei para escutar a letra e percebi que ela tem tudo a ver com aquele momento (e com muitas das minhas principais questões da vida). E também porque desde que li no livro “Que ninguém nos ouça”, a frase “A tristeza nos aproxima de nós”, tenho pensado nisso. O que se acentuou com meu atual processo de psicoterapia e esse resgate das Julianas que fui. Pode não parecer pra quem me conhece hoje, mas já fui uma pessoa MUITO triste. Até já constelei a minha tristeza. Na representação de uma pessoa, a abracei, conversei com ela e me despedi. Hoje ainda a sinto em alguns momentos e confesso que quando ela aparece, me vem até a sensação de um conforto pela lembrança de todo o tempo em que ela foi minha companheira, mas já não é algo que me leva à total escuridão.

Já estava para escrever sobre isso, mas o faço hoje porque ontem numa reunião lá em casa, me perguntaram como cheguei à algumas conclusões e desconstruções na minha vida e eu acho que muito foi por toda a tristeza que já senti e que não tinha vergonha de colocar para fora. A tristeza me fez passar muito tempo sozinha, ela me aproximou de mim, de verdade. Ela me fez conversar com muitas pessoas e ser acolhida por elas. É tão engraçado que sempre que eu me sentia triste, me imaginava num grande colo. A tristeza me possibilitava abrir espaços para ser cuidada, numa época em que eu me sentia responsável por cuidar dos outros. A tristeza também me fez buscar ajuda e desde adolescente, fazer psicoterapia e viver processos de autoconhecimento. Talvez se eu tivesse sido alguém predominantemente feliz, não tivesse chegado aqui com quase 15 anos de psicoterapia, vários cursos nesse sentido, leituras, conversas, trocas com pessoas excepcionais, uma escrita afiada e “esvaziadora” e experiências das mais variadas, mas todas relacionadas à processos de autoconhecimento. Claro que ainda tenho uma vida inteira de descobertas pela frente, mas eu sei que já vivi muito, olhando pra “dentro”, e já esmiucei muito todas minhas formas de existência.

Assim, hoje dedico minha gratidão à tristeza que me acompanhou desde muito cedo, o que me fez ressignifica-la também muito cedo, e me aproximar de mim. Eu, com meus “sad eyes”, como diz a música, precisei “take courage” para sozinha, “see my true colors shining through like a rainbow”!

 

 

 

| Sobre porque NÃO precisamos do machismo |

Sobre porque NÃO precisamos do machismo

Ou da série “Feminismo Pedagógico”

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Existe um vídeo rolando na internet já faz um tempo (que eu nem vou mostrar pra não dar mais ibope pra ele), aonde uma mulher afirma que nós – precisamos – do machismo. Da primeira vez que o assisti, fiquei com muita vontade de escrever sobre ele, mas a vida andou e acabei esquecendo. Até que uma pessoa me mandou ele novamente, pedindo para que eu comentasse sobre ele, porque ela tinha algumas dúvidas com relação ao Feminismo. Segundo essa pessoa, o Feminismo lhe parece que está muito “extremo no mundo”, e ela ainda queria saber porque as mulheres “querem os mesmos direitos, mas não os mesmos deveres”.

Assim, inspirada pelo 8M e por todas as discussões das quais venho fazendo parte, além das reflexões “internas” que faço ao ter contato tanto com feministas, como com pessoas ainda tão resistentes ao Feminismo, resolvi pegar cada ponto da dúvida e das colocações do vídeo, e esmiúça-los, a fim de esclarecer algumas confusões. Não sou nenhuma doutora no assunto e ainda tenho muito o que aprender e me desconstruir, mas quis mesmo falar numa linguagem bem simples, para que outras pessoas que estejam abertas ao diálogo, também possam se colocar para pensar um pouco mais e não sair por aí como essa moça, compartilhando inverdades.

Também não sou dona da verdade e essa é só uma contribuição que pode (ou não) acrescentar a formação das suas próprias convicções. Depende da sua abertura. Saibam que essas também já foram minhas dúvidas e de outras pessoas ao meu redor que passaram a respeitar e até fazer parte do movimento. Imaginem que em 2012 eu afirmava que não era feminista porque dizia que não acreditava em extremos. Sorte que com muita leitura, conversas e escuta empática, fui desconstruindo muitos dos mitos que insistem em deslegitimar e tentar enfraquecer o movimento.

O maior problema desse vídeo é como ela cruza dados reais (nem todos) com colocações completamente ignorantes, no sentido de que ela desconhece totalmente do que está falando. E como isso é perigoso! Você compartilhar uma “opinião” (apesar de eu acreditar que preconceito nunca é opinião) a fim de influenciar terceiros, sem ter um mínimo de cuidado e conhecimento do que está falando.

Mas vamos lá! Como brincamos, o Feminismo é um tanto pedagógico e já estamos acostumadas a sentar e explicar algumas inverdades que insistem em nos enfraquecer. Saibam que eu gostaria de estar fazendo outra coisa, como focando nos estudos da faculdade de Psicologia, arrumando umas gavetas e aprendendo francês, mas me sinto na obrigação de descortinar certas mentiras que circulam por aí.

Vou por partes pra ficar mais fácil.

Sobre a afirmação de que o Feminismo hoje “chegou a um extremo no mundo”, discordo totalmente. Primeiro que não podemos tomar o mundo a partir da nossa realidade. Dizer que o Feminismo chegou a um extremo porque ao seu redor ele ficou mais evidente, é fechar os olhos para tantas outras realidades. Cada vez mais tenho contato com outros contextos e mulheres inseridas neles. Confiem em mim, na grande parte do nosso Brasil e do mundo, o Feminismo e a questão do protagonismo, empoderamento e igualdade ainda não se fizeram presentes. Ainda sobre esse extremismo, o Feminismo é um movimento bem amplo, aonde cabem muitos Feminismos, e assim como qualquer movimento, teremos das feministas mais “de boas” às mais guerrilheiras. Eu, particularmente, não sou das mais ativas, mas aprendi a entender que pessoas dispostas a alcançar o “extremo” são importantes. Nunca conquistamos nada sendo boazinhas e gentis. Além do que, vivemos um momento de transição social nesse sentido de igualdade de gêneros e os extremos são o que, muitas vezes, aceleram o processo. Entendem? Ninguém nunca, por si só, através de uma “auto reflexão” se deu conta do que estava acontecendo. Por isso, precisamos mostrar, explicar, demonstrar e às vezes, precisamos chegar a um extremo para que a mensagem seja transmitida e produza algum efeito.

Sobre querermos os mesmos direitos, mas não os mesmos deveres… O Feminismo é um movimento que busca a igualdade de direitos e que busca desconstruir o que chamamos de estereótipos de gênero. Aqueles básicos como “mulher é delicada, nasceu pra cuidar da casa, dos filhos” e “homem tem que ser o provedor, violento e protetor”. Ele busca, resumidamente, a desconstrução do machismo, que é prejudicial tanto para mulheres como para os homens. E é aí que está a maior desinformação da mulher do vídeo, ao usar dados e assuntos que também merecem destaque e problematizações, mas que também são causados em maior ou menor grau, pelo machismo.

Começando com o primeiro dado, em relação à guarda dos filhos. Acho que não preciso nem explicar porque antes de 2014, ano em que foi aprovada a lei da guarda compartilhada como regra, na maioria dos casos de separação, as crianças ficavam com as mães, né? As mães eram quem ficavam responsáveis pelo cuidado dos filhos, por isso, quando acontecia o divórcio, eram elas quem ficavam com eles. E até aonde eu sei isso não foi uma luta das mulheres, mas algo que se colocou naturalmente de acordo com a realidade da época. E também nunca soube que a conquista da guarda compartilhada foi uma luta por parte dos pais, que se sentiam prejudicados com a situação. Porque conheço MUITOS casos de pais que simplesmente desapareceram da vida dos filhos após a separação. E o máximo que a mãe poderia cobrar era uma pensão em dinheiro (que também precisou de lei que envolve prisão para funcionar efetivamente), por que como cobrar amor e responsabilidade ou reconhecimento da paternidade? E não pensem que a lei da guarda compartilhada mudou muita coisa, porque surgiram outros dilemas, como o caso da alienação parental. Tenho algumas amigas separadas/divorciadas que alegam que, mesmo com a guarda compartilhada, na prática, o pai vê os filhos de 15 em 15 dias SE ele quiser. Falando nisso, sempre fico pensando nas mães que fogem da regra e agem como esses pais. Elas são EXTREMAMENTE julgadas e criticadas. Existem mães que abandonam os filhos? Com certeza, mas esse é um outro problema a ser discutido e com certeza é num número irrisório perto da quantidade de pais que abandonam a paternidade depois que o relacionamento não deu mais certo.

Sobre o número de mortes, que não é de 9 para um (em 2011, os dados eram de 420 mortes de homens para 100 de mulheres). É verdade sim que homens morrem mais (e também se suicidam mais). Homens morrem mais, mas morrem nas mãos de outros homens e por questões ligadas à violência, no trânsito (são estimulados a correrem, chegarem primeiro, serem os melhores), por consumo de bebida (nem preciso dizer como homens são estimulados a beber) e por questões relacionadas ao tráfico. Eles se suicidam quando estão desempregados e impossibilitados de desempenharem o papel de provedor da casa e da família. Na verdade, mulheres tentam mais o suicídio, mas os homens tem mais “sucesso” porque tem acesso mais fácil à armas de fogo. E tudo isso também é resultado do machismo, a ideia da supremacia do macho, que se não é atingida, leva o sujeito ao total declínio e angústia.

O dado relacionado ao fato de homens chegarem em menor quantidade às universidades é problematizável e depende muito de quais cursos estamos falando. Sim, homens são incentivados desde pequenos à trabalhar. E MUITAS mulheres que eu conheço iniciaram uma graduação justamente porque não foram estimuladas a trabalhar e estudaram para “passar o tempo”. De qualquer forma, segundo dados de 2016, apesar de as mulheres serem maioria nas escolas, universidades e cursos de qualificação, elas ainda recebem menos do que os homens para desempenharem as mesmas atividades e estão mais sujeitas a trabalhos com menor remuneração e condições mais precárias. As engenharias, por exemplo, tem mais homens e cursos que trabalham com cuidados de saúde tem mais mulheres. Não preciso nem dizer por que né? E isso não tem nada a ver com biologia, mas com uma construção social. Ah, e adivinhem quais são as profissões que ganham mais?

Sim, eles tem menos tempo de licença paternidade e isso também é totalmente problematizado por nós. A questão é que ao contrário do que ela insiste em dizer, uma luta não deslegitima a outra. Ao contrário, está tudo ligado! Tenho contato com MUITAS mães e tenha certeza que a maioria adoraria que o pai tivesse mais tempo de licença. Vocês não imaginam como seria um sonho ter com quem dividir de perto os desafios dos primeiros meses. Se os pais tivessem a licença estendida e também saíssem do trabalho quando um filho fica doente ou a escola está em greve, por exemplo, homens e mulheres teriam até mais condições de disputar de forma igual vagas de emprego. Porque mulheres muitas vezes não são contratadas ou porque estão em idade fértil e logo irão ter filhos ou quando tem os filhos, porque precisam de horários flexíveis para poderem cuidar deles. Quando engravidamos, ouvimos “e como você conciliará carreira com família?” (e saibam que esse tema é uma das maiores angústias e dilemas das mães). Nunca ouvi perguntarem isso à um homem.

Sobre o dia internacional. Vocês sabem por que o 8 de março? É uma forma de marcar um ato de mais de cem mulheres que foram violentadas e mortas (queimadas trancadas dentro de uma fábrica) simplesmente porque eram mulheres e por pressuposto, não tinham o direito de se manifestarem por melhores condições de trabalho. Se algum dia, homens forem mortos ao reivindicarem uma violência que sofreram só porque são homens… O dia não serve para ganharmos mimos e abraços mas para marcarmos a importância da luta dessas mulheres que morreram para que eu pudesse estar aqui cursando uma segunda faculdade, dividindo as tarefas da casa com o marido e explicando tudo isso.

Homens são a maioria dos moradores de rua porque tem mais problemas com álcool e drogas e com um “não dar conta” de cumprir seus supostos papéis sociais. Mas ainda essa semana ouvi um morador de rua que foi na Assembleia cobrar medidas com relação à situação das mulheres moradoras de rua. Disse que além da vulnerabilidade das ruas, elas sofrem MUITO mais violência por serem mulheres. Dá pra entender como existem questões que são super importantes de serem levantadas, mas como ser mulher exige um pouco mais de atenção? E isso não é vitimização ou caridade, é a pura realidade.

Com relação à saúde, homens morrem antes (e isso eu constatei quando trabalhei na Vara de Sucessões, aonde a maioria das inventariantes era mulher) porque não são estimulados a cuidarem de si, do seu corpo, da sua saúde e das suas emoções. Crescem com referências de super heróis, que não falam sobre seus sentimentos e que resolvem tudo na base da violência. Homem que se cuida e que se aproxima do estereótipo do dito feminino, que age como “mulherzinha” sofre tanto preconceito quanto mulheres (o ódio ao feminino aparece no índice de mortes por crimes de homofobia e transfobia). Homem tem que ser macho, durão e invencível. E não pode chorar. Cuidar da saúde é coisa de bichinha. Homem morre de câncer de próstata porque tem vergonha de fazer o exame. Já soube de váááááários casos de homens que morreram ou porque não aceitaram fazer o exame ou porque não quiseram operar, o que pode causar impotência sexual.

Sobre o exército é outra questão super “problematizável”. Pais militares criam filhos para serem militares porque o exército é lugar de macho. Isso já vem mudando, mas se vocês soubessem como é difícil uma mulher ocupar um espaço tão masculinizado. Ela sofre humilhações, violências, precisa se masculinizar para ganhar algum respeito e provar que é competente, “mesmo” sendo mulher. Isso acontece também em ambientes como obras, fábricas… Escrevi um texto enorme só sobre isso, em outra ocasião. Porque cobram que adentremos esses espaços, mas quando o fazemos somos violentadas, hostilizadas… Pensam que é fácil suportar toda essa opressão?  Elas muitas vezes desistem não porque querem direitos, mas não deveres, mas porque a convivência se torna impossível.

O cálculo da previdência também foi usado de forma leviana. Você sabe por que mulheres se aposentam antes? Calcula-se que a mulher trabalhe 3 horas a mais que o homem diariamente na tripla jornada trabalho-filhos-casa. O cálculo se dá com base nisso. Não é mordomia, é o reconhecimento de um trabalho que não se remunera. Quem sabe um dia, quando homens entenderem DEFINITIVAMENTE que o cuidado da casa e dos filhos não se faz porque se tem uma vagina e passem a fazer a sua parte, o cálculo possa ser igual. E não pensem que a realidade de hoje é muito diferente da época da minha avó. Se vocês soubessem a quantidade de amigas em pleno 2017 que relatam o total desinteresse do marido diante das suas responsabilidades. Mas elas ainda funcionam na lógica de que melhor casada com um bundão, do que solteira. Tem umas que me relatam histórias que me deixam indignada e no dia seguinte, postam foto da família perfeita para atestarem para a sociedade que elas conseguiram e cumpriram seu papel social.

A parte do Titanic chega a ser hilária e realmente, colocaram mulheres e crianças primeiro e a parte das mulheres é sim fruto do machismo, porque naquela época as mulheres eram mesmo consideradas indefesas e por isso, necessitadas da “bondade” do homem. Isso ainda acontece, mas a cada dia em menor grau. As pessoas também costumam confundir machismo com gentileza. Um homem abre a porta para a mulher e isso não será machismo se ele fizer o mesmo para um amigo ou colega. Gentileza não pressupõe gênero, mas um coração bom. Mulheres tem mãos e sabem abrir a porta e isso não é ser “mal amada” ou “mal comida” ou não reconhecer a atitude do outro, mas o machismo mora nos detalhes e são esses detalhes que fomentam o machismo violento, aquele que mata e mata MUITO (dados de 2011 já são totalmente desatualizados e nem podem mais servir de referência).

Fui procurar dados e achei um texto dizendo que homens morrem mais que mulheres por violência doméstica (li essa semana num cartaz no 8 de março que dizia que mulheres morrem 6,6 vezes mais que homens – mortos por mulheres). Olha, se você me contar dois casos de homens que foram mortos pela mão das suas companheiras ou porque queriam trabalhar fora, ou porque queriam terminar o casamento (o que muitas vezes acontece porque elas não aguentam mais aquela convivência), ou porque saíram com os amigos para beber, ou porque usaram uma saia curta, eu posso sentar e repensar o caso. Os casos que eu conheço, eles morreram como forma de pôr fim na tortura que praticavam com suas mulheres. Mas eu posso contar agora assim, sem pensar, a história de umas 30 mulheres que morreram só esse ano. Uma inclusive estava amamentando o bebê e morreu a facadas. Outro caso essa semana, bem fresquinho. O marido indignado com a ex esposa que se separou e estava voltando a viver, matou os dois filhos a facadas, mandou fotos pelo whatts pra ela e depois se suicidou. Ela tinha feito vários registos na polícia e ele matou ela, não fisicamente, mas de todas as outras formas.

Então, parem de querer enfraquecer o movimento, por que quem ele prejudica? Quem? Algum homem retrocede quando uma mulher avança? Eu entendo que alguns se sintam meio perdidos diante de tantas desconstruções. Também é difícil reconhecer que nossa forma de pensar e existir de, alguma forma, oprime outra pessoa. Mas não dói reconhecer que na nossa sociedade, homens tem alguns privilégios a mais. E por mais que alguns sejam solidários ao movimento e tal, só sendo mulher pra saber o que é ser mulher na nossa sociedade. E isso não é vitimização, é pura constatação da realidade. Toda mulher ou menina tem uma história de algum tipo de violência. Eu já fui assediada grávida ou com filho no colo. E o discurso é tão introjetado que muitas vezes nem nos damos conta do que acontece conosco. Sentimos vergonha, culpa…

Como essa mulher pode falar que precisamos do machismo? Isso me deixa extremamente triste e indignada. Precisamos de igualdade, de respeito, de gentileza, de paz, de amor. Não precisamos de uma cultura machista, que oprime mulheres e massacra os homens.

Venho pensando muito que eu queria estar estudando e defendendo outras coisas. Tem tantas lutas que também são importantes. Eu queria ocupar meu tempo só estudando Psicologia, por exemplo, e mostrando para as pessoas a beleza e a importância de se conhecer melhor, mas não consigo fingir que nada está acontecendo. E já foi provado através de estudos que, naturalmente, nenhuma mudança acontece. Veja o último discurso do nosso presidente que só legitima a mulher que fica dentro de casa. Isso é um retrocesso absurdo. Imagina se ficássemos prostradas e caladas diante de tanta discriminação?

O texto ficou enorme, mas ao contrário dessa mulher, eu não quis ser rasa e leviana nas minhas colocações.

E pra quem ainda não associa a ideia do machismo, da suposta masculinidade exigida dos meninos e dos homens, à todos os problemas que os homens também enfrentam, sugiro que assistam no Netflix, o documentário “The mask you live in”.

Seguimos, rumo à próxima desconstrução da série “Feminismo Pedagógico”.

| Queremos mais do que flores |

Queremos mais do que flores

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Essa semana se comemorou o Dia Internacional da Mulher e há alguns anos, algo me incomoda nessa data, mas foi só depois que me aproximei do Movimento Feminista e comecei a me considerar uma – mulher e feminista – é que entendi o porquê. Existe muita exaltação da figura da mulher, muitas mensagens prontas, supostos presentes e elogios, mas poucas atitudes práticas. Porque até onde eu sei, a criação do dia em si não diminuiu o número de mulheres que morrem assassinadas todos os dias, seja dentro de casa, na mão dos seus supostos companheiros ou na rua, porque de alguma forma, não se enquadraram no padrão imposto e esperado pela sociedade.

Quem me acompanha há algum tempo, deve ter percebido como sou apaixonada pelo universo das mulheres, tanto que penso muito em trabalhar especificamente com elas depois que me formar em Psicologia. Admiro a força, as potencialidades, as fragilidades e como ainda conseguimos existir e resistir, mesmo numa sociedade tão – silenciosa e, às vezes não tão, sutilmente – machista, misógina, opressora, desigual e violenta. E por toda essa admiração e consciência social, aproveito esse espaço para levar essa reflexão o mais distante possível. Não venho falar do dia da mulher apenas como uma forma de reforçar o discurso que insiste em dizer que somos super poderosas, guerreiras e fortes, porque sim, de fato, somos super poderosas, guerreiras e fortes, mas por trás desse discurso há muita hipocrisia e uma cobrança disfarçada. A grande maioria é guerreira e super poderosa não porque nasceu mulher, mas porque precisou.

Somos cobradas (e nos cobramos porque somos atravessadas por esse discurso) a estudar, trabalhar, ter filhos, cuidar da casa, cuidar do corpo, a nos comportar, não reclamar, fechar as pernas, abaixar a saia e diminuir o decote. E se algo de ruim nos acontece, ainda somos responsabilizadas por isso. Desde o segundo em que chegamos ao mundo, somos adornadas com laços, brincos e sapatos. Já nos mostram como a nossa imagem é importante. Não nos deixam ser apenas bebês e crianças, com as cabeças livres e roupas confortáveis. Nascemos para enfeitar, não à toa, adjetivos referentes à nossa beleza chegam antes de qualquer outro.

E não achem que isso é vitimização, é apenas um relato da realidade, das estatísticas e das notícias que cada vez mais tomam os meios de comunicação. E nem é falta de reconhecimento da grandeza das mulheres, só penso que ela poderia aparecer sem tantos sacrifícios, sem tantas marcas e sem tantos obstáculos. Poderíamos lutar por uma sociedade melhor, correr atrás dos nossos sonhos, crescer com sofrimentos que são naturais, mas sem precisar, ao mesmo tempo, provar que somos boas, “mesmo” com uma vagina e um útero.

Assim, que nessa semana, nesse mês, ou melhor, no ano inteiro, sejamos lembradas como alguém de direito. Porque não adianta a empresa dar rosas para suas funcionárias, mas pagar menos ou as demitir porque tem ou desejam filhos. Não adianta a grande rede de livrarias dar desconto para as mulheres, mas só para os livros que ela acha que nos interessarão. Queremos mais, queremos melhor, queremos aquilo que quisermos, não o que dizem que devemos querer.

Sou super solidária e admiradora das mulheres fortes que conheço, mas mais do que simplesmente olhar para elas e dizer “parabéns”, seguirei na luta por um mundo melhor para todas nós. Já conquistamos muito? Com certeza! Mas não sejamos inocentes, ainda temos um longo caminho pela frente.

Então, que sigamos juntas, porque queremos – e precisamos – muito mais do que flores!

Texto postado originalmente no Jornal Folha do Oeste.

Está tudo certo

Está tudo certo

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Como a vida, às vezes, tem das suas sincronicidades. Estou há meses para escrever aqui na coluna sobre essa espécie de mantra que procuro utilizar na minha vida e decidi que o faria nesse mês de fevereiro. Pois não é que eu finalizo esse texto, algumas horas depois de me despedir, por conta do seu passamento, da pessoa com quem eu aprendi esse mantra?

A filósofa Dulce Magalhães, com quem eu tive a honra de partilhar alguns momentos e com quem eu muito aprendi, tanto nos cursos, como nos bons encontros, sempre levava consigo a máxima de que “Está tudo certo. Não tem nada errado”. E desde o dia em que ouvi essa frase, procuro repeti-la para mim mesma, diante de dificuldades e desafios que possam surgir no meu caminho.

Aceitar o que se apresenta, sem lutar contra o que está posto é uma espécie de exercício para a vida. Não significa se acomodar, resignar-se ou se conformar, mas acalmar o coração diante do inesperado e confiar, que seria o oposto de controlar. Com o coração em paz, e não resistindo àquilo que não esperávamos, conseguimos pensar, caso seja possível e necessário, numa forma de lidar com o que se apresentou e seguir.

Sempre que penso que “Está tudo certo”, lembro-me de ser como a água que corre no fluxo do rio. Diante das pedras e curvas, a água não fica questionando, resistindo ou tentando, em vão, remover os obstáculos. Como não tem controle sobre o que encontrará no seu caminho, a água simplesmente flui. Aliás, fluir, é outro termo que sempre foi muito usado pela Dulce nos seus textos e ensinamentos: “Precisamos aprender a navegar na tranquilidade e sermos capazes de lidar com as dificuldades com maior aceitação, ao invés de brigar com o inevitável. Flua”.

Claro que nem sempre conseguimos lembrar ou aceitar que “Está tudo certo”. Por vezes, os desafios são mesmo, desculpem a redundância, excessivamente desafiadores. A vida em curso, nos coloca diante de encruzilhadas, decisões difíceis, arrependimentos. Vivenciamos perdas, dores, angústias e aceita-las, como parte da jornada, em alguns momentos, pode parecer impossível. Durante a despedida da Dulce, por exemplo, que partiu de forma tão repentina e inexplicável, não foi fácil aceitar que estava tudo certo, mas brigar com o destino ou com o que se apresentou, vai ajudar em alguma coisa ou mudar a situação?

Assim, como forma de homenageá-la e compartilhar com mais pessoas esse exercício, ou tarefa da consciência, como ela dizia, venho te dizer que “Está tudo certo. Não tem nada errado”.

Também aconteceu outra sincronicidade enquanto eu escrevia esse texto. Resolvi ouvir novamente um áudio antigo no meu celular, que foi gravado durante uma sessão aonde a Dulce fez a leitura da mandala que ela desenhou para mim. Ao final, quando ela me pergunta se tem mais alguma coisa que eu queira saber, eu digo rindo: “E no final, vai dar tudo certo?”. Ela, com toda sua sabedoria e frases proféticas, responde: “Vai. Talvez não do jeito que você desejou, mas vai dar tudo certo”.

Portanto, meus queridos, que era outra fala recorrente dela, “Está tudo certo”.

Diante das adversidades da vida, não batam a cabeça nas pedras. Lembrem de ser como a água.

Respirem e fluam.

Publicado originalmente no Jornal Folha do Oeste em 11 de fevereiro de 2017.

 

 

 

 

 

Me demito ou sobre a maternidade performática

Me demito ou sobre a maternidade performática

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A foto é um registro de um desses dias em que eu ainda não tinha me demitido.

Não costumo ser uma pessoa muito encanada com as minhas escolhas ou alguém que se deixa abater pelas cobranças sociais e que tenta sempre ocupar um papel de modelo de alguma coisa. Sinto que procuro ser, até o contrário disso. Alguém que gosta de compartilhar o lado B dos papéis que cumpro e de exibir (claro, não sem receio) as minhas fraquezas e limitações.

Então, que dia desses, ao terminar mais um dia exaustivo, aonde precisei atender às inúmeras demandas (imediatas!!!) de dois filhos e uma casa, olhei para mim mesma e me demiti. Sim, senti um impulso de manifestar minha insatisfação com tantas tentativas cruzadas (e frustradas) de ser a melhor mãe. Por conta do período de férias dos meus dois filhos, me vi numa fase bem complicada. Só um exemplo dessas tentativas cruzadas: eu me olhava no espelho e não gostava do que via, mas ao mesmo tempo, estava SEMPRE com tanta dor no corpo, que não me animava para fazer exercício físico. Aí decidia que mudaria meus hábitos alimentares e até conseguia em algumas refeições, mas tinha dias em que eu só queria pedir uma pizza, até lembrar que obviamente, a pizza viria cheia de gordura saturada, trans, glúten, embutidos e lactose. Uma alternativa seria sair para comprar ingredientes saudáveis para um jantar funcional, mas logo desanimava porque eu iria sozinha ao mercado na praia com duas crianças. Aí que eu me sentia culpada por não conseguir fazer programações que incluíam meus filhos. Nossa, eu não estava dando conta!

Como eu disse no começo, não costumo ser aquela mãe e/ou mulher que tenta bancar um modelo de maternidade ou existência perfeita, mas por vezes, se me distraio e engato no automático, quando percebo, já estou equilibrando mais bandejas do que eu quero ou consigo. É a famosa frase, que tenho no meu escritório: you can do anything, but not everything. Podemos fazer determinadas escolhas sobre aquilo que queremos ser ou fazer, mas com tantas possibilidades, nos perdemos e queremos fazer e ser TUDO, ao mesmo tempo.

Assim, eu decidi me demitir cargo de tentar ser uma super mãe. Não estou dando conta de ser a mãe fit, a mãe sarada, a mãe orgânica, a mãe BLW, a mãe que manda lancheira igual a da filha da Bela Gil, a mãe que incentiva a criatividade e deixa pintar as paredes, a mãe alternativa, a mãe mindfullness, a mãe homeopática, a mãe alheia à tecnologia, a mãe que se comunica de forma não violenta, a mãe do consumo consciente, a mãe que medita, a mãe sustentável e ecológica, a mãe livre demanda, a mãe do desmame gentil, a mãe que senta e brinca, enquanto existem um milhão de coisas para serem feitas, a mãe que não tem cara de mãe, a mãe que parece irmã, a mãe que ainda é a super esposa, a super funcionária e a super amiga.

Para que a minha maternidade não se torne uma prisão, da onde eu só tenha vontade de fugir, prometo ser a mãe possível, a melhor mãe que eu posso ser naquele momento.

Para as desavisadas, que pensam que estou surtada (talvez, eu esteja, vá saber), aviso que essa demissão é uma espécie de brincadeira, porque na minha realidade, depois de muita terapia e processos de auto observação, não me dou ao trabalho de tentar ser nem três das mães que enumerei (pelo menos, não ao mesmo tempo). Apenas reuni tudo o que eu já ouvi durante esses quase sete anos sendo mãe e depois de conversar com muitas delas.

Só eu sinto que a maternidade anda meio performática? Ao invés, de a exercermos da forma mais leve, prazerosa e pessoal possível, temos uma necessidade de praticar todas as novas “tendências de maternar” e ainda, atuar diante dos outros. Claro que, muitas vezes, fazemos isso na busca de sermos uma mãe melhor para a nossa filha ou filho e eu não acho isso de todo ruim, o problema é quando a busca por ser uma versão melhor, torna-se uma obrigação, que vira uma frustração e por fim, uma punição.

Se eu pudesse dar apenas uma dica para as mães que também se reconhecem demasiadamente humanas, como eu, seria a de escolher as alternativas e possibilidades que sejam importantes para você e sua família e se alinhar à elas. Parece simples, mas não é. Parece impossível, mas não é também.

O bom é que de quebra, ao exercitarmos esse processo de aceitação de uma maternidade possível, além da leveza que passamos a sentir, ao nos liberarmos de todas essas cobranças e expectativas, automaticamente, estaremos liberando nosso filho ou filha, também. Porque se nos cobramos em ser a melhor mãe do play é porque esperamos algo das nossas filhas e filhos.

Também não custa lembrar que não devemos julgar outras mães (como eu também faço, sem hipocrisia), porque elas estão passando pelos mesmos desafios que nós. Todas as mães em algum momento (ou em vários ou em todos) vão vacilar com o que consideram “ideal”. E sabem o que mais? TUDO BEM.

Portanto, continuarei na tentativa de ser a melhor mãe possível, de acordo com o que é importante para mim, mas da tentativa de ser a mãe performática, que ainda termina um dia morrendo de vontade de ir pra cama com o marido (sorry marido), eu me demito.

Eu ia voltar, São Paulo

Eu ia voltar, São Paulo

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Li em algum lugar que ontem foi aniversário de São Paulo e procurei um texto que escrevi uma vez sobre a importância dessa cidade na minha vida, mas não achei.

Só que achei uma vontade de escrever de novo sobre ela e achei uma saudade do que vivi quando morei lá e um tanto de fotos, que me fizeram ficar acordada até tarde, viajando em cada uma delas e escrevendo esse texto.

São Paulo foi a minha rota de fuga assim que me formei em Direito. Queria fazer uma especialização fora do Brasil e meu pai me mandou para lá. Eu ia só no segundo semestre de 2009, mas depois de me desiludir e terminar o rolo com o meu então namorado (e atual marido), antecipei a ida para o primeiro. Que seria o único.

Observação: depois que eu antecipei, voltamos, começamos a namorar e assim permanecemos, a distância (nós víamos quase todo final de semana).

São Paulo tem total relação com a reviravolta que a minha vida deu e que me trouxe até esse exato momento, em que às 2 da manhã escrevo e finalizo esse texto (juro que não lembro a última vez que fui dormir essa hora).

Lembro até hoje do Marco me levando no aeroporto, no dia em que eu fui pra ficar (depois, ele levou minhas coisas de carro). Lembro do nascer do sol no avião e da saudade que eu já sentia de tudo que estava deixando. Mal sabia, que estava saindo de casa para, praticamente, não voltar, já que quando eu voltei de férias, engravidei e em seguida, fui morar com o Marco.

Portanto, foi em São Paulo que eu vivi a primeira e única experiência de morar totalmente sozinha. Meu primeiro endereço, nos três primeiros meses, foi um flat em Perdizes (ou Barra Funda, dependia a correspondência, mas o primeira é mais chique) e minhas principais lembranças lá, envolvem os jogos do Palmeiras, que aconteciam exatamente na frente do meu prédio e que eu assistia de vez em quando do terraço, junto com uma mega câmera da Globo.Em alguns dias, os jogos me alegravam, com seus barulhos invadindo meu quarto silencioso, mas na maioria, me irritavam e me atrapalhavam os estudos. De lá, também lembro de um taxista que tinha o ponto na frente do meu prédio e que me atendeu várias vezes. Um querido, foi quase meu terapeuta. A última vez que o vi, ele estava me levando para Congonhas no dia em que eu voltava de férias pra cá. Passei o caminho inteiro brigando e chorando no telefone com o Marco. Aliás, brigar, chorar e falar no telefone com o Marco, foram algumas das coisas que eu mais fiz em São Paulo.

Também lembro da sensação de precisar me virar numa cidade que, às vezes, dá medo. De ir quase todo dia no shopping Bourbon (que ficava do outro lado da rua) para estudar na Livraria Cultura e não me sentir tão sozinha. Estranhos me faziam companhia, já que eu nunca encontrava NINGUÉM conhecido, coisa que demorei até me acostumar, porque aqui na minha cidade, basta botar o pé pra fora de casa…oi, tudo bom? No Bourbon, eu também fazia minhas compras no supermercado, que precisavam ser carregadas com muito custo até em casa, já que nenhum taxista aceitaria uma corrida que só desse a volta na quadra.

Também lembro da volta do cursinho LFG à noite e o teatro que eu fazia para que o taxista achasse que tinha alguém me esperando em casa. Mas não tinha. E essa era a pior parte de estar lá. Chegar em casa e não ter ninguém. Aquele silêncio. O barulho de chave no corredor, mas que não era pra mim. Chorei vááááárias vezes por causa disso. Até o dia em que eu conheci a minha vizinha do aspirador. Meu flat tinha carpete e quem me conhece sabe que sou doida por uma faxina, mas eu não tinha aspirador. Um dia, chegando em casa, escutei minha vizinha de porta usando um e toquei lá para pedir emprestado. Sim, eu fiz isso e que ótimo que eu fiz isso porque fiquei amiga dessa vizinha e ela me fez muita companhia enquanto eu morei na rua Turiassú (foi pra ela que deixei tudo o que eu tinha na geladeira antes de me mudar para o apartamento da minha amiga nos Jardins). A Graca (Graciella Starling) é mineira e na época, tinha uma marca de acessórios. Sempre muito estilosa e determinada, hoje está colhendo os frutos de tanta dedicação com seus chapéus que enfeitam as cabeças de MUITAS famosas (sempre fico feliz de ver o trabalho dela em filmes, novelas, carnavais e capas de revistas). Um tempo atrás, jantamos aqui em Floripa, mas faz tempo que não nos falamos.

No meu último mês de São Paulo, saí da Turiassú e fui morar (de graça!!!!!!) nos Jardins, mais especificamente, na Alameda Ministro Rocha Azevedo, entre a Itú e a Jaú. Sempre amei aquele bairro, com suas árvores e padarias e fui muito feliz no mês que morei lá com a Dani. Ela foi minha professora na PUC e ficamos tão amigas, que ela me convidou pra morar com ela no meu último mês antes de voltar de férias para Floripa. Aliás, a Dani foi muito mais do que uma amiga (tanto que ela já apareceu por aqui porque ainda somos muito amigas até hoje). Foi minha mãe quando precisei de uns puxões de orelha (ela ainda me chama de filha, e agora tenho dois irmãos mais novos) e me buscava em casa (antes de eu morar com ela) quando a solidão era grande e quando eu quase morria de chorar porque o Marco não me atendia. Nunca vou esquecer do dia que ela me disse: Você já percebeu que parece que você nunca chegou em São Paulo?

A Dani me levou e buscou na prova da OAB, me emprestou o carro dela, me apresentou os melhores restaurantes (aonde aprendi que paulista divide a conta, independente se eu escolhi o prato mais barato porque não tinha muito dinheiro), me dava aula particular de Direito Tributário e me fazia companhia tanto para assistir Sex and the City, como pra sair para o bar (coisa que as duas caseiras nem gostavam de fazer)! Ah, ela também me levou para passar o final de semana na (baita) casa de uma amiga numa praia quase particular que só chegava de balsa (tão particular que não lembro o nome). Nesse dia, ela tirou uma foto minha falando no telefone com o Marco, já que ali era o único lugar que pegava celular. Claro que eu e ela brigamos, principalmente pelo tanto que ela me irritava com a sua preguiça matinal. A Dani não funcionava de manhã. Acordava depois de muitas sacudidas (ela me dava carona pra PUC) e mal conversava antes do meio dia. Mas os desentendimentos foram tão pequenos que até hoje, ela tem um espaço gigante dentro do meu coração.

Apesar de hoje ter certeza de que eu não tenho nada a ver com Direito Tributário, fui muito feliz na PUC. Lembro de passar pelo minhocão, no caminho para a pós, dentro do táxi. São Paulo ainda estava acordando (a foto do nascer do sol é da minha janela, num desses dias) e eu me sentia muito bem de estar ali. Sempre tinha que explicar para o taxista que iria para a Avenida Consolação, mas que não, não era no Mackenzie. Era um pouco mais pra frente, à esquerda. Pode me deixar aqui do outro lado da avenida. Consolação e sua vida própria. Movimento logo cedo, esquinas lotadas e correria para atravessar na faixa. Ali aprendi a não ser atropelada e a pegar ônibus. Isso quando não rolava carona com a Carol até a Paulista, aonde eu pegava o metrô até a Vila Madalena, descia, pegava um ônibus para descer a Pompéia e caminhar até em casa. Lembro de alguns colegas da pós. De nome, só da Carol, da Flávia, do Mário e do Roberto, ali da foto, que era empresário do Chiclete com Banana e pegava o avião toda segunda e quarta para assistir as aulas. Eu nunca perdia a oportunidade de chamar ele e cantar “Chicleeeeete, oba, oba” (única parte da única música que conheço). Também lembro das salas com cheiro de velho e das vezes que fui na PUC em Perdizes e sentia vontade de morar naquela biblioteca gigantesca. Monte Alegre. Aquele monte de livro é que me deixava alegre.

Também tiveram as saídas com a Flávia (que agora também é blogueira famosa), que insistia em me tirar de casa e gastar uma grana indo até o Morumbi. Mas ela me levou pra ver o Vik Muniz e foi muito legal. Aliás, eu levei ela, dirigindo o carro do seu namorado, num passeio que foi muito louco. E cheio de fotos, o que era a cara da Flávia.

Também tiveram os almoços com meus tios e primos, que todo domingo me resgatavam e me davam a sensação de ter uma família, mesmo naquela cidade que como eu disse antes, às vezes, dá medo.

Também tiveram as visitas do Marco, nossa ida para Maresias, ao Museu do Futebol, ao Terças Insanas. A primeira vez que meu sogro e meu pai se conheceram, na Família Mancini, cenário de muitos outros encontros, tendo sido o último, em julho passado, quando fomos nós dois sozinhos para São Paulo, comemorar meus 30 anos e 3 dias sem os filhos.

São Paulo, São Paulo, São Paulo.

Eu ia voltar. Já tinha alugado um quarto no apartamento de uma amiga de uma amiga, já estava rematriculada na PUC (mensalidade paga!) e tinha um estágio num escritório. Tinha deixado todas as minhas coisas na casa da Dani e a certeza da minha volta, mas nunca voltei. Nem para buscar minhas coisas, que foram trazidas por um caminhão de mudança e nem para o Direito, que aproveitei para abandonar nesse pacote todo.

Eu ia voltar, São Paulo, mas João Pedro mudou meus planos e hoje eu sei, que essa foi a melhor mudança que poderia ter acontecido.

São Paulo, São Paulo, São Paulo.

Eu volto, porque eu te amo, mas só para passear por você, bem. Te usar, comer, visitar minhas livrarias preferidas e meus paulistas queridos e depois voltar para o meu lugar preferido no mundo: o abraço da minha família, nascida e construída aqui.