João Pedro e – NOSSOS – desafios

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Filho, como nossa convivência vem sendo desafiadora.
Hoje o que mais me faz refletir na vida não é a faculdade, nem meu casamento e nem as questões sociais, mas você. Com os seus ataques súbitos de brabeza, rispidez, hostilidade, teimosia. Com os seus questionamentos que me chocam e as verbalizações, nem sempre diretas, de que amo mais o seu irmão porque passo mais tempo com ele. Juro que não imaginava que nossa dinâmica aconteceria dessa forma, mas aconteceu e agora estamos precisando lidar com tudo isso. Sei que não é fácil mesmo dividir atenção, tempo disponível dos pais e seus brinquedos. Você reinou absoluto por cinco anos e de repente, surge um bebê que demanda muita energia, que é fofo e recebe os olhares e sorrisos de todos. Mas não deixamos que isso justifique todos os seus comportamentos ruins e estamos conversando com você sobre isso.
Claro que com a chegada do seu irmão, realmente, estamos com menos tempo e mais exaustos, mas nosso esgotamento é realidade e precisamos, todos, aprender a conviver com o que está posto. Como você só tem 6 anos e seu poder de compreensão e adaptação é menor que o nosso, estamos procurando te mostrar, de uma forma que você absorva, o que está acontecendo com a família. Também estamos nos policiando para não deixar para você só o nosso cansaço, já que você é mais independente e, teoricamente, demanda menos que o seu irmão. E sempre que podemos, te damos o que não temos. Saio para lanchar só com você, seu pai não janta e nem toma banho para brincar com você. Mas você sempre quer mais. E esse vem sendo meu maior exercício, deixar você entender que eu não sou incansável, que eu te amo, mas que tenho minhas limitações e não posso estar disponível 24hs por dia para você. Também ando exercitando deixar você vivenciar frustrações, porque não, nem sempre teremos aquilo que queremos, na hora que queremos. Sim, você pode ter tudo o que quiser nessa vida, mas o tempo das coisas nem sempre está no nosso controle.
Ao contrário de muitos pais, sei que os seus comportamentos não são causados pela sua “personalidade”. É tão mais fácil culpabilizarmos crianças de 6 anos, não é? Tenho total consciência de que tudo o que você faz e diz, é puro reflexo de como a nossa família está vivendo. Famílias são sistemas, engrenagens. Se uma peça não vai bem, é porque o sistema inteiro está com problemas, que aparecem na figura de um representante. Crianças não nascem com índole, caráter ou maldade. Tudo é construído de acordo com as nossas expectativas sobre elas, com a forma como organizamos suas rotinas e as nossas próprias vidas. E é isso que me faz refletir muito porque não é fácil reconhecer que nós também somos responsáveis pelas suas manifestações.
Hoje pela manhã você teve mais uma das suas crises. Te acordei devagar, com beijos, palavras de amor e te levei no colo para a sala. Aí, você reclamou do frio. Te levei um cobertor e vesti o seu uniforme embaixo dele. Depois, você reclamou que eu cortei o bolo em quadrados e não em fatias. Como não tenho muito tempo para negociações logo cedo e como essa semana combinei com o seu pai de fazermos um “intensivão de amor”, aonde só compraremos as brigas que são mesmo necessárias, comi o bolo em quadrados e cortei outra fatia em fatias, como você pediu. Aí você implicou de ter que ir de tênis. Queria suas sandálias, mas fazia frio lá fora e você está tratando uma otite. Ah, mais uma vez, você disse que nunca mais tomaria o antibiótico, que ainda levará uns cinco dias para acabar. Também teve a demora em comer um simples bolo, os resmungos, o gel que quis passar no cabelo na última hora e por fim, você bateu a porta de casa, o que eu tinha te pedido para não fazer 10 segundos antes. Aí não me aguentei. Fui dali até a porta da sua escola falando para você tudo o que eu estava sentindo e que não seria daquela forma que você ganharia a nossa atenção. Por fim, desci do carro, me abaixei do seu lado e disse que te amava. Que porque eu te amava, estava te dizendo tudo aquilo ali, ao invés de te violentar com um tapa, de não me importar com tudo o que você estava fazendo ou te dizer que você é feio e terrível. Vi que você absorveu tudo o que eu te disse, talvez porque eu tenha aberto o meu coração e me implicado no que você estava sentindo, mudou sua expressão e sorriu. Nos abraçamos e eu te levei até a rampa de acesso.
Até pensei em subir com você, como faço umas duas vezes na semana, mas achei que seria importante você subir sozinho hoje. Aos poucos, fui conseguindo que você se responsabilizasse pela sua chegada em sala de aula e percebi o quanto você se achava “mocinho” quando sobe sozinho (sempre te espero passar do portão de segurança).
Aí nos abraçamos, nos beijamos e você foi subindo. Nós continuamos rindo e dizendo “Te amo”, “Eu te amo mais”, “Duvido que você me ama mais do que eu amo”…
Porque eu te amo, filho e prometo sempre estar atenta à você e suas demandas. Mesmo cansada, cheia de coisas para fazer, prometo me manter alerta.
E te levarei até aonde eu puder, mas depois te deixarei subir sozinho.

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1 comentário

  1. Jaqueline Gusmao · maio 12, 2016

    você é uma mãe linda e que eu admiro muito, adoro seus textos, sua escrita é leve, é com o coração!

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