Medo: fugir ou lutar?

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Quando eu tinha 19 anos, pedi para sair de uma montanha russa, segundos antes de ela começar. Eu já estava sentada, amarrada e só esperávamos o sinal para começar, mas eu não me senti bem. Nunca gostei muito de montanhas russas, mas naquele dia, senti um medo tão avassalador, que sem pensar, levantei a mão e manifestei meu desejo de desistir. Fui vaiada, achincalhada, mas meu medo de estar ali foi maior do que o medo de fracassar diante dos outros, inclusive, de amigos meus.

Quem nunca deixou de fazer algo, por medo?

Dos medos infantis aos grandes temores, em algum momento, deixamos de fazer algo, por medo. Assim, meu convite hoje é pensarmos sobre ele, mas não com olhos da moral, considerando que ele é “do mal” ou ruim, mas entende-lo e aprender com ele, já que o medo sempre esteve e sempre estará presente, em qualquer fase das nossas vidas.

Hoje, depois de muitas reflexões, sei que não há como eliminarmos o medo diante dos desafios comuns da vida, porque mesmo quando desistimos ou nem nos atrevemos a realizar algo que nós dá medo, ele ainda está lá. Também não penso que o ideal é ser destemido. O convite aqui é para pensarmos sobre os nossos medos e quando possível, agir para além deles.

Sentir medo sempre foi importante. O medo nos faz refletir, nos torna ponderados, é um mecanismo de aprendizagem e de sobrevivência. A questão é quando o medo nos paralisa, nos desmotiva e nos fecha portas. Percebo que muitas vezes, nós sofremos por “medo de sentir medo”. Deixamos de fazer aquilo que desejamos por medo de errar, de se frustrar, de se decepcionar, ou seja, por “medo de sentir medo”, não vivemos.

Em tempos de bolas de natal feitas de plástico, como ouvi certa vez, precisamos ousar e arriscar mais. Refletir sobre quais medos são resultados das nossas próprias histórias e quais medos herdamos de outras pessoas, em especial, nossas famílias. Quais medos valem o enfrentamento e quais merecem respeito e escuta. A vida não é feita de garantias e talvez um grande exercício diário, seja enxergar o medo como impulso, desafio e potencial transformador.

No mesmo dia em que eu pedi para descer da montanha russa segundos antes de ela começar, voltei lá. Depois de desistir, fiquei um bom tempo olhando para ela de longe e enumerando todos os aspectos que me provocaram o medo estarrecedor de estar sentada naquela cadeira. Medo de não ter controle do que aconteceria, medo das sensações que sentiria no corpo quando estivesse “solta” no ar… E depois de objetivar tudo o que antes me provocava um medo paralizante, concluí que eu era capaz de passar por aquilo e de vencer aquele meu medo. Peguei a fila de novo, sentei na cadeira e enfrentei o medo de estar ali. E como é boa a sensação de agir além do medo.

Eu deixei de ter medo de montanha russa? Não! Ainda hoje escolho quando quero vencer esse meu medo e enfrentar todas aquelas quedas e loopings. Porque como mencionei antes, não dá para esperar o medo desaparecer para agir, para realizarmos aquilo que desejamos. O medo de que as coisas não saiam como planejamos, o medo diante do desconhecido, do incontrolável e do risco, sempre estará presente, mas, ao invés de deixa-lo te impedir de seguir, converse e aprenda com ele.

Portanto, o medo é uma reação inevitável à determinados estímulos, físicos ou mentais. Ele te prepara, para fugir ou lutar.

Fugir ou lutar.

Fugir ou lutar?

A escolha é sua.

(Só para constar que aqui falo sobre os medos simples, não sobre fobias. Medos que te paralizam, que aceleram a respiração por certo tempo, não por tempo indeterminado).

Texto publicado originalmente no dia 11-06-16 no Jornal Folha do Oeste.

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