|Sobre meus tropeços e caminhos profissionais|

Sobre meus tropeços e caminhos profissionais

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Nos últimos dias, após comentar no blog sobre a minha vida regressa no Direito, recebi vááááários comentários de pessoas compartilhando suas dúvidas nas atuais vidas profissionais ou contando sobre mudanças que promoveram nas suas escolhas nesse sentido. Uma até comentou que fui grande influenciadora numa mudança que ela fez do curso da faculdade e eu fiquei muito feliz com essa notícia.

Confesso que há algum tempo, ando avessa com essas teorias do “querer é poder”, porque acredito sim num potencial existente em todas as pessoas, mas também sei que existem contextos e contextos de vida e um milhão de emaranhados complexos que muitas vezes nos impedem de alcançar aquilo que desejamos. Sim, emaranhados passíveis de dissolução, mas não apenas com uma dancinha motivadora ou uma frase de impacto numa fonte bonita. Demandas que exigem tempo, dedicação, terapia…enfim, questões muito mais profundas do que uma simples falta de vontade ou procrastinação.

Tendo feito essa introdução e frisado o cuidado que procuro ter com as histórias de cada leitor (não acredito na transposição de modelos, do tipo, funcionou para mim, funcionará para você) posso contar um pouco mais da minha própria história. Do caminho que eu trilhei e que sigo trilhando na busca por encontrar os meus propósitos e estar cada vez mais próxima do que eu escolho ser e fazer. Ah, também só preciso dizer que hoje (EU!!!!) não acredito em essência, na busca por ser “eu mesma”, porque não acredito que exista um eu lá dentro, um buraco aonde estão todos os meus valores e princípios esperando que eu os acesse através de muita meditação e autoconhecimento. Acredito que fomos estruturados de alguma forma na infância, através das expectativas que foram colocadas em nós, da convivência com as pessoas mais próximas, das histórias que ouvimos dos nossos antepassadas e inundados da lógica como acontecia a dinâmica ao nosso redor, e que dessa forma, fomos nos apropriando de algumas características que nos tornam quem somos agora. Posso ser um pouco extrema, mas hoje não acredito mesmo que nascemos com qualquer bagagem, porque penso que isso essencializa certas características, nos cristaliza e nos dá a ideia de que, de alguma forma, precisamos encontrar lá dentro o lugar aonde moram todas as nossas respostas. Sim, acredito no poder do silêncio e de que devemos nos ouvir para fazer as escolhas que precisamos, mas não acho que essa voz vem de um EU que sempre esteve lá, mas um EU que foi sendo construído e que vai se modificando a cada dia. Atualmente, é nessa fluidez que acredito e numa atenção aos discursos que nos atravessam e numa reflexão do porquê pensamos de determinadas maneiras. Não penso que existam respostas prontas e fáceis, mas acho que vale essa auto reflexão, que deve acontecer não só no silêncio e no descolamento do externo, mas implicada nas dinâmicas que nos influenciaram e nos atravessaram durante a vida. Meu maior exercício hoje vem sendo colocar todas as minhas convicções e gostos em perspectiva. Desde os mais complexos (“em quais pensamentos ainda sou racista e machista?”, por exemplo) aos mais simples (“por que o tamanho dos meus seios me incomoda tanto?”). Procuro não ir para extremos, mas problematizar mesmo meus questionamentos. Não me acho melhor que ninguém por isso e nem acho que essa problematização seja necessária à todos, mas eu Juliana me sinto muito mais satisfeita fundando as minhas escolhas e convicções (depois de ler opiniões direitas, esquerdas, religiosas…) depois de um tempo pensando sobre elas e não agindo na “onda do momento”.

Agora voltando a ideia inicial desse texto (essa introdução já dava um único post).

Já contei os meus caminhos profissionais algumas vezes nos meus blogs antigos, mas como esse é novo e hoje sou outra Juliana contando, resolvi recontar a história por aqui. E também, apesar de saber que algumas pessoas me acompanham desde 2012, acho que a maioria é recente e nem faz ideia sobre tudo o que eu escrevia antes.

Eu sempre curti escrever. Acho que por uma influência da minha mãe, escrevia e como nos tornamos melhores naquilo que praticamos mais, fui aprimorando e desenvolvendo a minha escrita. Porém, nunca pensei que fosse possível aliar o que então era um hobbie à uma escolha profissional. Até cheguei a pensar em cursar Jornalismo, mas como era super influenciada pela opinião dos meus pais (em especial do meu pai), que trabalhavam num ramo completamente diferente, desisti da ideia e passei para o Direito (que possuía possíveis áreas de encaixes com o negócio familiar). Direito porque também sempre fui muito questionadora e cheia de argumentos e a facilidade em escrever também seria útil nessa área. Enfim, aos 17 anos ingressei no curso.

Só um parênteses aqui. Hoje não acho “bom ou ruim” essa influência dos meus pais. Acho que eles deram o seu melhor, me transmitiram aquilo que acreditaram e aceitar (ou não), foi a escolha que eu fiz com 17 anos. Acho super normal os pais influenciarem (direta ou indiretamente) as escolhas dos filhos e essa suposta sucessão de lugares, bens e posições é bem comum. Tipo: “suei para conquistar tudo isso, portanto, nada mais fácil e óbvio do que meus filhos continuarem”. Assim, não perco mais o meu tempo lamentando não ter cursado Jornalismo ou ter passado 5 anos cursando algo que acabei não praticando nem por 1 semana. Juro que hoje enxergo tudo o que aconteceu até aqui como uma espécie de sequência de acontecimentos responsáveis pelo estado em que me encontro hoje. Entendem? Os erros e os acertos me trouxeram aqui e isso é o que hoje me importa.

O mais engraçado é que durante os 5 anos em que cursei Direito, NUNCA pensei em desistir. Inclusive, fui uma aluna muito dedicada, participativa e engajada durante todo o curso. Dentro do Direito, acabei me identificando com á área de Família e Sucessões (que tratam de herança e tal), mas de novo, escolhi me deixar conduzir por um ideal de sucesso e de trabalho que tinham mais proximidade com o negócio da família e segui por outros caminhos.

Vejam bem, respeito quem escolhe uma carreira pelo glamour, pelo poder e para bancar uma vida luxuosa. Mas essa, de verdade, não era eu. Acho que fui me envolvendo com esses ideais, me deixando seduzir pelos títulos, roupas alinhadas, mas com o tempo, fui percebendo que aquilo não era pra mim.

Durante a primeira metade do curso, trabalhei com o meu pai. Ele me oferecia um horário flexível e um bom salário e aquela acomodação me seduzia. Porém, queria muito estagiar na área e assim que voltei de uma temporada nos EUA, comecei estágio no fórum e assim segui, até me formar.

No final de 2008, me formei em Direito com boas notas, 10 no TCC e ainda fui oradora da formatura (escrevi metade do discurso). Nesse momento, queria muito morar fora e como meu pai não andava de avião e não me queria longe, o máximo que consegui, foi morar em São Paulo (minha mãe me apoiava a morar no exterior e até foi numa feira comigo). Claro que para sair de casa, arranjei uma excelente justificativa: uma pós graduação em Direito Tributário na PUC (essa área era super promissora). Em fevereiro de 2009, segui para São Paulo. Hoje consigo perceber que odiei a área e que por puro boicote, não passei na OAB. Nas primeiras férias da pós, vim para Floripa e engravidei do meu então, namorado.

Minha mãe ficou um pouco chateada quando contei, porque ela sabia que filhos geralmente “sobram” para suas mães e eu recém ia iniciar minha carreira profissional (claro que depois ela amou a notícia), mas meu pai ficou muito feliz, porque além de ganhar um neto, aquele era um motivo perfeito para eu ficar na cidade e trabalhar nos negócios da família. E foi o que eu fiz, sem grandes resistências, até 2012.

No começo de 2012, minha mãe sugeriu que eu voltasse para a terapia. Eu me sentia, aparentemente, bem, mas ela disse que como seria um ano importante para mim (eu casaria oficialmente em outubro), seria legal eu voltar para a terapia e ela tinha uma ótima indicação. Hoje consigo perceber que em vários aspectos eu não estava bem. Tinha crises horrorosas de enxaqueca (até aquele momento já tinha feito dois tratamentos), estava bem acima do peso e constantemente tinha crises existenciais. Aliás, até 2012, seguido, eu tinha crises de choro e de tristeza profunda. Já era meio que uma característica minha. Me sentia triste e passava um dia inteiro chorando. Pode parecer que era uma frescura ou coisa do meu signo (sou canceriana), mas me sentia mal mesmo e não conseguia fazer nada.

Assim, em março de 2012 voltei para a terapia e a partir dali, minha vida deu um giro de 360º. Voltei para a psicoterapia individual, mergulhei no livro “Co-dependência nunca mais” (indicado pela minha psicóloga depois de todos os ” meu pai” que ela ouvia nas minhas falas) numa viagem bem intensa que fiz de carro, constelei o tema que me incomodava (que envolvia a tristeza como minha fiel companheira), meus pais se separaram, eu iniciei a terapia em grupo (do livro “Mulheres que correm com os lobos) e no segundo semestre, iniciei um processo de coaching que foi fundamental na escolha por iniciar o curso de Psicologia.

Mas não pensem que 2012 foi um ano fácil. Acho até que foi o ano mais difícil da minha vida. Precisei colocar MUITA coisa para fora, tirar a sujeira de baixo do tapete e externalizar todas as minhas insatisfações e desejos. Meu casamento ficou por um fio, a separação dos meus pais foi bem dolorosa e no meio disso tudo, eu estava organizando a nossa festa de casamento.

Chorei MUITO, sofri MUITO, briguei MUITO…

Como surgiu a escolha pela Psicologia no meio disso tudo? No ano de 2012, escrevi muito. Por conta de todos os processos de autoconhecimento, organizava meus pensamentos escrevendo no blog. Escrevia sobre minhas descobertas na psicoterapia, nas Lobas (terapia em grupo), no coaching…mas sentia que apenas reproduzia as reflexões alheias e comecei a sentir vontade de mais e mais e mais. Assim, durante meu processo de coaching, que durou bastante tempo e ao qual me entreguei bastante (fazia todos os deveres e tal), cheguei à ideia de cursar Psicologia. Gostava de escrever, vinha gostando muito de escrever sobre a vida, sobre as pessoas e seus dilemas, mas queria aprofundar meu conhecimento e tornar aquilo meu caminho profissional.

No verão entre 2012 e 2013, mesmo já matriculada em Psicologia, vivi um período bem complicado. E em 2013, a situação não se alterou muito, principalmente, no primeiro semestre. Porque eu estudava de manhã e à tarde, trabalhava no negócio da família (todos lá em casa, inclusive, meu marido trabalham juntos). Meu pai ainda não reconhecia a minha entrada no curso e a nossa família, que segundo a minha psicóloga, era simbiótica, começava a lidar com uma nova realidade (meus pais separados e eu manifestando um desejo de seguir por outros caminhos).

Enfim, sem entrar em detalhes, em 2013 minha vida começou a fluir mais em direção aos meus objetivos profissionais (foi quando eu iniciei o blog Psicologando). Parei de trabalhar à tarde e fiquei só estudando de manhã, mas para isso, precisei negociar com os meus pais e comigo mesma.

Aliás, esse é um ponto que eu já queria mesmo escrever aqui. Não como uma satisfação, mas para compartilhar como nossas escolhas também envolvem renúncias.

Eu comecei a faculdade e continuei trabalhando no período da tarde, mas não consegui levar assim por muito tempo porque não conseguia estudar (ou sentir prazer nisso), a cada dia, gostava menos do que fazia (trabalhava num setor financeiro) e não tinha tempo para mais nada (filho, marido, casa, meu corpo…). Sim, eu sei que essa é a realidade de muitas pessoas, mas eu sabia que não precisava ser a minha. Compreendo a multiplicidade de contextos, mas aprendi a respeitar e aceitar o meu, sem vergonha (isso demorou muitos anos, confesso).

O fato era que eu precisava escolher se bancaria essa dependência financeira por um tempo, até terminar a faculdade e começar a trabalhar naquilo que eu gosto, ou continuaria trabalhando com o que eu não gostava para ser uma assalariada e “merecedora” daquele dinheiro no final do mês. Não vou dizer que essa escolha foi fácil e rápida. Demorou mais de um ano para eu sentar com os meus pais e dizer, com todas as palavras, que precisava daquela quantia mensal sem trabalhar, efetivamente (só meu marido não daria conta). Acho que toda nossa família foi vivendo esse processo de entender que eu não era feliz em nenhum dos ambientes da empresa da nossa família. Sou a filha mais velha, de pais que batalharam MUUUUUITO para chegar aonde chegaram e que nunca tiveram a possibilidade de escolher, de mudar de direção, de não trabalhar…entendem? Sempre houve muita cobrança, direta e indireta, para que eu sucedesse e ocupasse aquele lugar. Eu também sofri bastante para me apropriar da minha realidade. Tinha quase 30 anos e ainda dependia financeiramente dos meus pais. Hoje falo MUITO DE BOA sobre isso, mas demorou bastante para lapidarmos essa relação. Ninguém hoje finge que eu trabalho ou que um dia eu voltarei a trabalhar…eu não tenho mais receio de piadinhas por parte do meu pai ou vergonha de dispor do meu tempo “livre”. Meus pais, principalmente meu pai, precisou também de tempo para transformar suas convicções. De entender que se ele queria uma filha feliz, precisava entender também que ela não seria feliz trabalhando com o que não gostava. Sempre fui muito criativa, e todos sempre exaltaram isso, mas na hora do vamos ver, essa minha característica era deixada de lado.

Hoje o que eu percebo dos meus pais, e que meu pai fala bastante, é que eles trabalharam muito a vida inteira – meu pai se tornou um pai presente na minha adolescência – então, se eles não puderem utilizar aquilo que conquistaram para auxiliarem as suas filhas, ele não faz muito sentido.

Sou MUITO grata ao trabalho dos meus pais. Afinal, foi ele que me sustentou e me sustenta até hoje. Mas aprendi que até sou herdeira (até porque só falamos em herança, quando alguém morre), mas não preciso ser sucessora.

Nossa, o texto ficou muito longo, mas quis recontar o caminho (até para não esquecer).

De novo, repito o que escrevi lá em cima. Essa é só a minha história, com características bem singulares. Cada um tem a sua.

Não me acho uma heroína porque acredito que por mais que tenha havido uma superação e uma saída de um lugar “cômodo”, eu tinha milhares de facilidades e pais maravilhosos. Conheço amigas que passam necessidades porque seus pais se negam a ajuda-las, por exemplo. Sei lá, cada um com a sua história, mas eu não acho que por regra, precisamos aprender as coisas com muito sacrifício. Se eu puder ajudar os meus filhos num momento em que eles necessitarem, farei com o maior prazer. Ainda mais, que é o caso dos meus pais, quando posso, sem que essa ajuda me falte depois.

De verdade, hoje não tenho vergonha de contar isso. De coração, mesmo. Sei que algumas pessoas devem me julgar, me considerar acomodada ou preguiçosa, mas eu sei (e se não sei, é em terapia que descobrirei) que essa foi uma escolha que eu quis fazer. Com essa ajuda, pude continuar com meu sonho de voltar para a faculdade e pude estar mais presente criando e cuidando dos meus filhos. Esse é outro ponto bem relevante: os meus filhos. Meu pais amam muito os seus netos e sabem como é importante essa fase deles e como a minha vida já é corrida dando conta de todas as demandas. Então, me ajudam ainda com mais prazer.

Procuro não me acomodar e da minha maneira, busco ir me organizando em direção ao meu futuro profissional. Depois de muita terapia, transformei minha relação com o dinheiro (e ainda continuo) e venho pensando qual futuro desejo ter e qual pretendemos transmitir aos nossos filhos. Porque apesar de vivermos uma vida confortável, perto da maioria da população, estamos o tempo todo diferenciando a condição dos nossos pais e a nossa. Isso cabe no nosso orçamento? Isso caberia no nosso futuro orçamento, quando eu estiver iniciando uma carreira? Para os meninos, procuro mostrar que eles podem aproveitar os benefícios oferecidos pelos avós. Não vou privar meus pais e meus sogros de proporcionarem prazeres aos seus netos (coisa que não puderem fazer com os seus filhos), mas estou o tempo todo falando em valores não financeiros, promovendo eventos que não envolvam dinheiro, ressaltando a importância da presença e não do presente.

E assim eu sigo…seguimos…

Aprendendo (com sofrimento ou não), aprimorando nossa relação familiar (quem nos conhece sabe como somos todos MUITO ligados e como precisamos organizar toda essa simbiose) e nos amando.

Almejo muito minha dependência financeira (acho que também não conseguiria depender de marido, mas isso é assunto para outro post) e irei alcança-la, mas para que ela venha sem esforço (no sentido de envolver carga emocional), sem desavenças familiares, sem doenças psicossomáticas, é assim que ela vai acontecendo.

E ah, parece que foi ontem que ainda demoraria 5 A-N-O-S para eu me formar e agora já passei da metade do curso (e ainda tranquei um ano inteiro). O tempo ia passar de qualquer forma e que bom que passou da melhor forma.

Aguardem as cenas dos próximos capítulos…

Beijos

 

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