Em (des)construção

Em (des)construção

lego

Há algum tempo, quando precisava me definir para qualquer fim, sempre me vinha a noção de que eu era um ser “em construção”. Passei tanto tempo em busca de quem eu era, o que eu desejava, para além das expectativas alheias, que acreditava que haveria de existir em algum lugar, uma definição pura e genuína, descolada do meu externo e do que os outros diziam que eu era e o que eu queria. Bastava que eu encontrasse dentro de mim, um “eu interior”, uma resposta para todos as minhas perguntas.

Hoje, já não acredito no que acreditava antes. Não penso que exista um eu anterior ou que exista qualquer definição que me encerre. Nesse ano, quando completei trinta voltas ao sol, passei a acreditar (passei a acreditar porque não penso que exista uma verdade absoluta, mas algo que escolhemos acreditar), que não nascemos nada, que não existe um buraco dentro de mim que abrigue a minha essência e que eu não posso me descolar justamente daquilo que me estruturou da forma como sou/estou hoje. Depois de ler e pensar, passei a me entender como um ser que, desde que nasceu (para não dizer antes), foi sendo construído, inserido numa infinidade de atravessamentos familiares, culturais e sociais. Sei que nem todos pensam como eu, e tudo bem, mas acho que independente da forma como pensamos sobre nós, é sempre válido refletirmos porque somos como somos, pensamos como pensamos e agimos como agimos. Independente das nossas convicções, é impossível existirmos sem aquilo e aqueles que nos rodeiam.

Portanto, as minhas perguntas mudaram de “quem eu sou?” para “por que eu sou como sou?”, ou “quem eu não sou?”, ou “quais discursos me atravessam?”, porque se eu partir do pressuposto de que já existe um lugar com as respostas, uma definição, algo imobilizado como essência, qual seria a graça de viver?

Não acredito mais numa identidade fechada e inata, justamente porque também acredito que talvez a graça seja justamente esse desconhecimento, as delícias que descobrimos durante nossas reflexões. Essa possibilidade de transcendermos a nossa existência. Acredito que talvez a busca, e não o destino, aquilo que percebemos enquanto vasculhamos entre os alicerces, entre aquilo que precisa ir e aquilo que queremos que fique, por si só, possa nos guardar gratas surpresas e boas doses de autoconhecimento.

E mais, se desejamos nos transformar e transcender, é necessário encontrarmos lugar para que o novo nos invada e para isso, é importante essa noção de desconstrução.         Se você precisa de novos pilares, de novas janelas e de novas portas, precisa descontruir aquelas que já tem e que percebe que já não lhe servem mais. Como podemos esperar novas possibilidades, que penso ser o que sempre buscamos, se não damos espaço para elas surgirem?

A ideia não é recomeçarmos do zero, já que não dá para nos desfazermos de tudo o que trouxemos até aqui. Como disse uma vez meu professor de Psicanálise, ficar sem nenhuma referência, é muito angustiante. A ideia é esse estranhamento do que nos é tão familiar. Estranhar para compreender. Conhecer para transformar. Desconstruir para talvez, construir.

Assim, eu sigo em des-construção. E você?

Texto publicado originalmente no jornal Folha do Oeste. no dia 03/09/16.

 

 

 

 

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