O que podemos fazer por aqueles que morrem

O que podemos fazer por aqueles que morrem

63015106_a-fan-of-brazil27s-soccer-team-chapecoense-mourns-during-a-gathering-inside-arena-conda-stad

            Eu tinha outro tema sobre o qual gostaria de escrever nesse último texto do ano, mas depois do que aconteceu na semana passada, não pude deixar de refletir a respeito do impacto que tragédias como aquela, produzem nas nossas vidas. Porque mesmo não gostando de futebol, mesmo nunca tendo visitado o oeste de Santa Catarina ou não conhecendo nenhum daqueles que perderam a vida na queda do avião, eu vivi e vivo um processo de luto, como penso que você também.

A morte por si só, já é um assunto que mexe comigo. Desde pequena, quando fico sabendo de alguém que morreu, conhecido ou não, sinto curiosidade a respeito da pessoa. O que ela fazia? O que deixou por fazer? Já pensei que esse meu sentimento fosse algo mórbido, mera bisbilhotice, mas hoje acredito ser uma maneira de tentar compreender melhor (como se fosse possível) essa imprevisibilidade do fim da vida. Porque é muito intrigante, num segundo, você estar ali, viva, cheia de sonhos, dúvidas, coisas para resolver, contas para pagar, tolices para se incomodar e no segundo seguinte, pluft, nada mais existir ou importar.

Intrigante e um tanto angustiante lidar com essa incerteza. Ainda mais para nós que a cada dia, estamos mais e mais acostumados a controlar nossa existência. Penso até que esse “não saber” é o que mais nos assusta diante de tragédias como a que ocorreu com a Chapecoense. Claro, também nos comovemos imaginando a dor daqueles que ficam, mas quando somos forçados a enxergar a brevidade da vida, nos chocamos. Porque naquele voo, ninguém imaginava que ali, havia chegado o seu fim. Morreu o pai que fazia planos sobre uma paternidade recém descoberta. Morreu o filho de uma mãe que aguardava a sua visita nas próximas semanas. E podia ter sido eu. Podia ter sido você. Aliás, a qualquer momento, pode ser eu e a qualquer momento, pode ser você. Ninguém está imune.

Mas então, o que fazer diante da incerteza que nos causa angústia, mas que ao mesmo tempo, é a única certeza que temos na vida?

Sinto muito, mas não tenho respostas prontas para essa pergunta. O que posso fazer, é compartilhar o que venho elaborando com tantas reflexões sobre o fim. Acredito que muito da angústia que sentimos seja pelo fato de estarmos insatisfeitos com o que estamos fazendo hoje com a nossa vida, enquanto ela ainda é nossa. Ao nos depararmos com o fim da vida do outro, olhamos para a nossa e percebemos o quanto a desperdiçamos.

O meu maior exercício ao ficar mexida com essa imprevisibilidade é me esforçar todo dia para ser uma pessoa melhor. Para mim e para o mundo. Confesso que quando penso na minha morte, não me preocupo com meu futuro no céu, mas com o que faço por aqui. Não tenho pretensão em garantir um espaço lá em cima, mas em dar sentido à minha existência e colaborar para esse mundo, aonde meus filhos viverão, se tornar um lugar melhor. Penso que viemos com uma missão, a missão de aproveitar a vida enquanto estamos vivos e fazer valer a pena.

Ah, a ideia anterior para meu último texto nesse ano, era falar sobre a importância de estarmos presentes nessas épocas festivas. Não só nos preocuparmos com presentes, roupas novas, fotos postáveis e metas bonitas para o próximo ciclo, mas estarmos definitivamente presentes aonde estivermos. Há uns 3 anos, sempre escrevo algo nesse sentido em dezembro, para lembrar o que penso ser, o verdadeiro sentido dessa época. Num mundo cada vez mais veloz, descartável e aonde passamos mais tempo olhando para telas do que para o rosto de outras pessoas, você se propor a estar verdadeiramente presente numa conversa, num encontro, é o melhor presente que pode oferecer.

E bem no fim, um assunto acabou tendo total relação com o outro, porque se a vida é assim tão breve, como esse acidente nos lembrou, nada mais importante do que você estar sempre presente no que está fazendo. Para que quando você partir, as pessoas não fiquem só com os seus sapatos não calçados ou as contas a serem pagas, mas com a lembrança do som da sua risada, do tempo que você dedicou à elas e da ligação que você fez numa terça feira qualquer.

O que podemos fazer por aqueles que morrem?

Viver!

Boas festas para vocês e nos vemos em 2017.

Assim, espero.

Texto originalmente publicado no Jornal Folha do Oeste em 10/12/16

Anúncios

Sobre meu retorno à terapia

Sobre meu retorno à terapia

transformacao-espiritual11jpg

Na semana passada, quando retornei para a psicoterapia, tive a oportunidade de recontar a minha trajetória até aqui, já que estou com uma nova psicóloga. Sempre acho muito engraçado e estranho esse primeiro contato, aonde contamos nossa história, através das nossas lembranças e percepções. Conto meu passado, com meus olhos do presente e inevitavelmente, a cada vez que reconto, é como se vivesse tudo de novo, mas ao mesmo tempo, ressignificando tudo o que aconteceu.

Geralmente, começo com o motivo da minha primeira ida à um consultório, na época da adolescência. Depois sigo pela relação com os meus pais, pelas mudanças que foram acontecendo quanto às minhas escolhas profissionais, pela forma como a maternidade adentrou minha vida e como eu e meu companheiro, fomos nos entendendo diante de tantas transformações.

Mas por que estou escrevendo sobre isso? Primeiro, porque ao retornar à esse lugar de paciente, senti uma necessidade de voltar a escrever e segundo, porque essa semana encerro, oficialmente, mais um ano dentro do curso de Psicologia e um ano em que eu retornei ao curso depois de ter trancado o mesmo período. Se eu disser que nem parece que há quatro anos fiz essa escolha, estarei mentindo, porque nesses quatro anos, vivi um milhão de experiências e senti sim o passar do tempo, mas realmente, em algum grau, o tempo passou rápido. Ainda consigo sentir a angústia que me invadiu lá em 2012, ao chegar à conclusão de que essa era minha escolha, o medo de anunciar minha decisão e a tristeza com as reações que presenciei. Claro que, de alguma forma, recebi apoio e condições de cursar uma segunda faculdade, mas demorou mais de um ano para que todos ficássemos confortáveis com as novas redefinições dos lugares.

A ideia desse texto não é esmiuçar essa fase, até porque já escrevi bastante sobre ela, mas olhar para trás com carinho, gratidão e me preparar para o que está por vir. Porque apesar de já ter resolvido muitas questões difíceis para mim, ainda tenho alguns vários emaranhados para desfazer. Novos desafios, novas reflexões e novos enfrentamentos.

Desde que soube que estava grávida do José, larguei a terapia. Primeiro, porque precisei fazer algumas escolhas e financeiramente, não era mais viável despender a quantia que pagava por mês e segundo, porque estava mexida o suficiente e não me sentia preparada naquele momento para futucar certas feridas antigas. Hoje, vejo que essa decisão foi boa em alguns aspectos porque sozinha, e de maneira processual, consegui resolver algumas questões e o tempo, foi meu aliado e porque amadureci de várias maneiras nesses últimos dois anos e agora consigo encarar certas questões mais de frente.

Acredito muito que nossa vida passa por fases, como as estações do ano. Até 2015, vivi a calmaria após a turbulência que foi o meu ano de 2012. Pude respirar aliviada depois de expurgar milhares de dores que me acompanharam por uma vida inteira. Aí, logo no começo de 2015, José nasceu e junto com ele, nasceu uma nova necessidade de me desconstruir, em vários sentidos. Depois de 2 anos estudando e vivendo uma faculdade que me fazia muito feliz e já com bastante autonomia porque João estava um pouco maior, fiquei praticamente 1 ano inteiro em casa. Que período difícil. Além da questão hormonal e da readaptação da rotina da família com a chegada de um novo membro, precisei interromper meu processo de criação e produção escrita e dar prioridade à satisfação das necessidades instantâneas dos meus filhos. Sim, eu escolhi me dedicar à maternidade nesse período e sabia que estar presente era importante, mas isso não me impediu de também sentir muita falta de outras áreas da minha vida que me eram muito caras e necessárias.

Enfim, chegou 2016, e em fevereiro eu retornei às aulas! Que maravilha. José entrou na escolinha, no final de fevereiro e João passou a estudar de manhã – e à tarde ficar comigo. Demorou um tempo até que a nossa nova rotina se estabelecesse e eu conseguisse encontrar, de novo, tempo para escoar minha criatividade, escrever, ler, refletir…sobre outro assunto que não fosse a maternidade. Porque claro que cuidar dos filhos também é uma forma de criação. Criar modos de interação, de construção de laços, de espaços de tempo para demonstrar amor, afeto, cuidado. Mas só quem ama MUITO o que faz, sabe como ter um tempo definido para tanto, é tão vital, como respirar.

O mais legal de todo esse processo é que no fim, uma área foi (e vai) complementando a outra. O ano de faculdade trancada foi um desafio pra mim, mas também me trouxe maturidade, novas perspectivas, novas trocas, novos encontros. Assim, como o retorno à faculdade nesse ano também acrescentou muito na minha maternidade e na minha relação com os meus filhos. Não só pelo fato de aprender novas teorias e construir novas reflexões (e, sem grandes pretensões e intenções, transpô-las para o meu maternar), mas também porque fui me transformando e como uma pessoa mais feliz, me tornei uma mãe mais feliz. Entendem?

E assim, chego a esse final de 2016. Totalmente transformada. Não perfeita, sem dilemas, sem imperfeições, dúvidas ou arestas. Mas a cada dia, uma versão mais próxima da que considero meu ideal hoje. E mais leve, menos preocupada com a opinião dos outros ou em ser aquilo que esperam de mim, menos ocupada para parecer importante ou sustentando aquilo que eu não sou e aprendendo a conviver com as minhas inconstâncias. Ah, e de volta à terapia, que mesmo só com duas sessões já causou um mega impacto no meu modo de existir.

Já até coloquei meu livro para pegar sol. Sim, meu livro que estava praticamente pronto, com as ilustrações, prefácio e orelha escritos, mas que há dois anos dorme dentro de uma gaveta. É, todos temos nossas sujeiras psíquicas varridas para baixo de um tapete. Basta percebermos um momento bom para que as varramos para fora.

Seguimos.