O que podemos fazer por aqueles que morrem

O que podemos fazer por aqueles que morrem

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            Eu tinha outro tema sobre o qual gostaria de escrever nesse último texto do ano, mas depois do que aconteceu na semana passada, não pude deixar de refletir a respeito do impacto que tragédias como aquela, produzem nas nossas vidas. Porque mesmo não gostando de futebol, mesmo nunca tendo visitado o oeste de Santa Catarina ou não conhecendo nenhum daqueles que perderam a vida na queda do avião, eu vivi e vivo um processo de luto, como penso que você também.

A morte por si só, já é um assunto que mexe comigo. Desde pequena, quando fico sabendo de alguém que morreu, conhecido ou não, sinto curiosidade a respeito da pessoa. O que ela fazia? O que deixou por fazer? Já pensei que esse meu sentimento fosse algo mórbido, mera bisbilhotice, mas hoje acredito ser uma maneira de tentar compreender melhor (como se fosse possível) essa imprevisibilidade do fim da vida. Porque é muito intrigante, num segundo, você estar ali, viva, cheia de sonhos, dúvidas, coisas para resolver, contas para pagar, tolices para se incomodar e no segundo seguinte, pluft, nada mais existir ou importar.

Intrigante e um tanto angustiante lidar com essa incerteza. Ainda mais para nós que a cada dia, estamos mais e mais acostumados a controlar nossa existência. Penso até que esse “não saber” é o que mais nos assusta diante de tragédias como a que ocorreu com a Chapecoense. Claro, também nos comovemos imaginando a dor daqueles que ficam, mas quando somos forçados a enxergar a brevidade da vida, nos chocamos. Porque naquele voo, ninguém imaginava que ali, havia chegado o seu fim. Morreu o pai que fazia planos sobre uma paternidade recém descoberta. Morreu o filho de uma mãe que aguardava a sua visita nas próximas semanas. E podia ter sido eu. Podia ter sido você. Aliás, a qualquer momento, pode ser eu e a qualquer momento, pode ser você. Ninguém está imune.

Mas então, o que fazer diante da incerteza que nos causa angústia, mas que ao mesmo tempo, é a única certeza que temos na vida?

Sinto muito, mas não tenho respostas prontas para essa pergunta. O que posso fazer, é compartilhar o que venho elaborando com tantas reflexões sobre o fim. Acredito que muito da angústia que sentimos seja pelo fato de estarmos insatisfeitos com o que estamos fazendo hoje com a nossa vida, enquanto ela ainda é nossa. Ao nos depararmos com o fim da vida do outro, olhamos para a nossa e percebemos o quanto a desperdiçamos.

O meu maior exercício ao ficar mexida com essa imprevisibilidade é me esforçar todo dia para ser uma pessoa melhor. Para mim e para o mundo. Confesso que quando penso na minha morte, não me preocupo com meu futuro no céu, mas com o que faço por aqui. Não tenho pretensão em garantir um espaço lá em cima, mas em dar sentido à minha existência e colaborar para esse mundo, aonde meus filhos viverão, se tornar um lugar melhor. Penso que viemos com uma missão, a missão de aproveitar a vida enquanto estamos vivos e fazer valer a pena.

Ah, a ideia anterior para meu último texto nesse ano, era falar sobre a importância de estarmos presentes nessas épocas festivas. Não só nos preocuparmos com presentes, roupas novas, fotos postáveis e metas bonitas para o próximo ciclo, mas estarmos definitivamente presentes aonde estivermos. Há uns 3 anos, sempre escrevo algo nesse sentido em dezembro, para lembrar o que penso ser, o verdadeiro sentido dessa época. Num mundo cada vez mais veloz, descartável e aonde passamos mais tempo olhando para telas do que para o rosto de outras pessoas, você se propor a estar verdadeiramente presente numa conversa, num encontro, é o melhor presente que pode oferecer.

E bem no fim, um assunto acabou tendo total relação com o outro, porque se a vida é assim tão breve, como esse acidente nos lembrou, nada mais importante do que você estar sempre presente no que está fazendo. Para que quando você partir, as pessoas não fiquem só com os seus sapatos não calçados ou as contas a serem pagas, mas com a lembrança do som da sua risada, do tempo que você dedicou à elas e da ligação que você fez numa terça feira qualquer.

O que podemos fazer por aqueles que morrem?

Viver!

Boas festas para vocês e nos vemos em 2017.

Assim, espero.

Texto originalmente publicado no Jornal Folha do Oeste em 10/12/16

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