|Sobre verão, memórias, coisas simples da vida…ou sobre o tempo|

Sobre verão, memórias, coisas simples da vida…ou sobre o tempo

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Foto: Renata Larroyd

 

Passamos a temporada de verão aqui em Jurerê há muitos anos e cada ano teve a sua peculiaridade. Dos mais recentes, lembro o que eu estava grávida do João e tudo ainda era muito novidade. Também lembro de um verão muito difícil, às vésperas de eu entrar na faculdade de Psicologia, aonde eu sentia uma angústia gigante e quase nem me aguentava. No seguinte, o Marco se recuperava de uma cirurgia no quadril e era o primeiro em que meus pais já não estavam mais casados. No verão retrasado, vivi um dos melhores períodos da minha vida, a espera pelo José. Mesmo super grávida, lidando com as restrições da diabetes e ficando uma boa parte do tempo, sozinha por aqui com o João, eu me sentia disposta, me preparava para o parto normal e curtia minha doce espera.

Cada estadia por aqui me desperta algo diferente e me faz precisar desenvolver alguma capacidade. Resiliência, paciência, determinação, malemolência. Aqui vivo momentos de alegria e de muito cansaço. Mas tudo num tempo diferente e eu acho que esse é o grande diferencial de passar um período fora do lugar aonde você vive a “sua vida”. Não mudar apenas de espaço, mas também a maneira como se vive e se conta (ou não) o tempo. Isso acontece quando viajamos para o exterior ou para a casa de um parente querido. Quando sentimos desejo de mudar de lugar, não é só de outro lugar que estamos precisando, mas de outro tempo.

Confesso que sofro um pouco com esse tempo diferente. Com a falta de rotina e de horários. Cada dia, uma atividade diferente, um estímulo novo para os meninos. Avós, tia, tio, visitas, vizinhos. Cafés coletivos, almoços emprestados, jantares que não tem hora para acabar. Barulho, cachorros latindo, buzinas, fogos estourando de repente. Controlo os horários o máximo que consigo, mas chega um momento em que eu desisto. Aqui estou sempre muito cansada (fisicamente), porque apesar de estarmos de “férias”, eu não descanso. Há sempre algo por fazer ou um José para cuidar.

Mas vim aqui dizer que pensando sobre o tempo, concluí que talvez seja isso que ficará registrado na memória dos meninos, assim como ficou na minha. Não a quantidade de tempo que passamos aqui, porque eu não lembro se passávamos um dia ou um mês de férias no Rincão, quando eu era pequena e ainda assim, foi lá que eu vivi uma grande parte das melhores memórias da minha infância. O tempo a que eu me refiro é o tempo com a família, é esse tempo em que não há escola ou grandes compromissos. Em que a mãe está quase sempre presente. Ou o pai, ou a vó, ou a tia. Que o que importa é a gelatina que está na geladeira, os almoços com a mesa cheia, a casa barulhenta (eu adorava dormir com a porta aberta ouvindo o barulho das pessoas da casa). Esses momentos em que de repente, aparece alguém ou uma mesa posta ou um bolo gostoso. Nada que envolve grandes luxos, porque as melhores memórias são aquelas mais simples. O fogão que faz o bolo, acende com fósforo (outro cheiro que lembra demais minhas passagens pela minha antiga casa de praia) e a nossa sala tem poucos móveis (aqueles que ninguém mais precisou).

Bem assim.

Claro que como tudo na vida, esses momentos duram um tempo e chega um tempo em que precisamos voltar para o tempo de sempre. Em duas semanas (olha eu contando o tempo), voltamos para a “cidade”, com a nossa rotina, nossos horários e compromissos. Aonde nem sempre há tempo para fazer um bolo e aonde a vó e a tia não estão na porta ao lado. Mas isso também é bom porque tudo que é gostoso dura o tempo que precisa durar para continuar sendo gostoso.

Pensando bem, o lado bom do tempo da cidade, que parece correr mais depressa, é que logo chega a nova temporada e uma nova oportunidade de viver um tempo aonde temos tempo.

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