Como mãe, eu nunca!

Hoje, recebi um email dizendo que alguém tinha comentado uma postagem no meu antigo e extinto blog “Fala, Mãe!”. Eu nem sabia que o blog ainda estava ativo (porque uma vez, tornei a maioria dos blogs que eu já tive, privados), mas fiquei feliz de voltar e ler o que eu tinha escrito. O texto em questão era uma brincadeira que eu fiz relacionada àquela brincadeira (ou desculpa para beber) chamada “Eu nunca” e a maternidade.

Como ando de novo nessa pegada de #prontofalei (se é que algum dia deixei de estar) e como estamos organizando um evento, justamente, para falarmos sobre isso (pensem que o post tem quase 6 anos!!!!!), resolvi repostar o texto com breves alterações, já que graças às Deusas, eu evoluí e não concordo com algumas colocações da Juliana de 2011.

Então, lá vai. Pega a bebida aí (ou nem, porque do jeito que eu ando cansada, se eu beber álcool, capaz de apagar total) e bóra dar umas risadas.

Como mãe, eu nunca!

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Vamos brincar de “Eu nunca!”?

Quem nunca brincou de “Eu nunca!” cazamigas, valendo um copinho de álcool?? Hein?? Relaxem que apesar de, às vezes, falarmos de crianças aqui, o papo é sempre de adulta e para adultas (ou não). Então, proponho que vocês tirem a “vodega” de trás do armário, que é para as crianças não beberem achando que é água, e bebam comigo a cada atitude que vocês já tiveram nesse nosso complexo mundo da maternidade. Porque vamos combinar, os AA´s da vida que não me ouçam, mas que, às vezes, dá vontade de tomar um porre pra esquecer de tudo, dá, não dá? (o problema é a ressaca depois e quem vai aguentar as crianças)

E que comecem os jogos…

– Eu nunca andei de carro com o meu filho/a minha filha fora da cadeirinha… (agora bebe quem já andou, mesmo que tenha sido até a esquina pra criança não chorar porque o carro já está em movimento);
– Eu nunca amamentei só para que meu filho/minha filha parasse de chorar! (nessa, bebe quem já deu esse “cala boca meu amor”, mesmo sabendo que aquele choro não era fome e que a sua escolha pode se transformar num hábito, que depois “se voltará contra você mesma”);
– Eu nunca amaldiçoei o pai do meu filho/da minha filha pelo “simples” fato de ele ser homem numa sociedade machista, aonde alguns ainda acham ok não fazerem a sua parte;
– Eu nunca bebi bebidas alcoólicas e mesmo assim amamentei antes das 3 horas recomendáveis… (agora bebe filha, bebe por ter bebido naquela vez!);
– Eu nunca dei Tylenol ou um antialérgico para o meu filho/a minha filha, na intenção de que elx dormisse mais tranquilx e, consequentemente, eu também… (sei que parece sacanagem, mas quem teve filhxs com longas crises de cólicas, sabe do que eu estou falando);
– Eu nunca deixei meu filho/minha filha cagadx um tempo, mesmo sabendo que elx estava sujx, pelo simples fato de ter preguiça de comprar a briga da troca de fraldas! (quer ver quando elxs começam a querer correr durante a troca de fraldas! Vira, praticamente, um Vale-Tudo);
– Eu nunca dei um pirulito para o meu filho/a minha filha só pra elx parar de me incomodar em algum lugar público;
– Eu nunca mirabolei planos malévolos sobre trancar o meu filho/a minha filha, que não parava de chorar no banheiro dos fundos (aquele beeeem longe do quarto) só pra ficar um pouco em silêncio;
– Eu nunca me peguei pensando “o que eu fiz isso com a minha vida”? (essa é pesada mas bendita a mãe que reconhece a sua fraqueza e faz esse tipo de questionamento pra depois chegar na feliz conclusão de que não conseguiria viver sem elx!). Pensem que essa última eu escrevi há quase 6 anos!!! E ainda continuo insistindo nessa tecla!

E aí já estão bêbadas? Foi só uma brincadeirinha hein…

Beijo beijo

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| A tristeza nos aproxima de nós |

A tristeza nos aproxima de nós

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Peguei a montagem de um post antigo porque ela me remete à essas várias Julianas.

Quando estamos num processo de psicoterapia, ou melhor, quando nos permitimos um mínimo de mergulho quando estamos vivendo esse processo, começamos a resgatar algumas lembranças de partes nossas que mesmo esquecidas de forma consciente, nos tornaram quem somos hoje.

O ano era 1999 e eu estava andando na rua perto da minha casa, voltando de alguma atividade extra da escola. A trilha sonora que tocava no meu discman era do CD da novela “Andando nas nuvens” e a música que eu não tirava do repeat, era True Colors, na voz do Phil Collins (as outras preferidas, eram “She´s All I ever had” do Ricky Martin e “Dust in the Wind” da Sarah Brightman).

Não lembro exatamente o porquê, mas lembro que estava vivendo um momento de extrema angústia (comum para os meus 13 anos). Dúvidas, incertezas e certa tristeza. Nesse caminho, cruzei com uma igreja (ecumênica) e resolvi entrar para me esconder um pouco e poder chorar em paz, literalmente. É essa lembrança que essa versão da música sempre me traz. Eu sentada na igreja com o discman no ouvido, chorando e colocando para fora aquilo que tanto me doía.

Mas por que tenho lembrado disso? Um pouco porque dia desses, ao ouvir essa música, parei para escutar a letra e percebi que ela tem tudo a ver com aquele momento (e com muitas das minhas principais questões da vida). E também porque desde que li no livro “Que ninguém nos ouça”, a frase “A tristeza nos aproxima de nós”, tenho pensado nisso. O que se acentuou com meu atual processo de psicoterapia e esse resgate das Julianas que fui. Pode não parecer pra quem me conhece hoje, mas já fui uma pessoa MUITO triste. Até já constelei a minha tristeza. Na representação de uma pessoa, a abracei, conversei com ela e me despedi. Hoje ainda a sinto em alguns momentos e confesso que quando ela aparece, me vem até a sensação de um conforto pela lembrança de todo o tempo em que ela foi minha companheira, mas já não é algo que me leva à total escuridão.

Já estava para escrever sobre isso, mas o faço hoje porque ontem numa reunião lá em casa, me perguntaram como cheguei à algumas conclusões e desconstruções na minha vida e eu acho que muito foi por toda a tristeza que já senti e que não tinha vergonha de colocar para fora. A tristeza me fez passar muito tempo sozinha, ela me aproximou de mim, de verdade. Ela me fez conversar com muitas pessoas e ser acolhida por elas. É tão engraçado que sempre que eu me sentia triste, me imaginava num grande colo. A tristeza me possibilitava abrir espaços para ser cuidada, numa época em que eu me sentia responsável por cuidar dos outros. A tristeza também me fez buscar ajuda e desde adolescente, fazer psicoterapia e viver processos de autoconhecimento. Talvez se eu tivesse sido alguém predominantemente feliz, não tivesse chegado aqui com quase 15 anos de psicoterapia, vários cursos nesse sentido, leituras, conversas, trocas com pessoas excepcionais, uma escrita afiada e “esvaziadora” e experiências das mais variadas, mas todas relacionadas à processos de autoconhecimento. Claro que ainda tenho uma vida inteira de descobertas pela frente, mas eu sei que já vivi muito, olhando pra “dentro”, e já esmiucei muito todas minhas formas de existência.

Assim, hoje dedico minha gratidão à tristeza que me acompanhou desde muito cedo, o que me fez ressignifica-la também muito cedo, e me aproximar de mim. Eu, com meus “sad eyes”, como diz a música, precisei “take courage” para sozinha, “see my true colors shining through like a rainbow”!

 

 

 

| Sobre porque NÃO precisamos do machismo |

Sobre porque NÃO precisamos do machismo

Ou da série “Feminismo Pedagógico”

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Existe um vídeo rolando na internet já faz um tempo (que eu nem vou mostrar pra não dar mais ibope pra ele), aonde uma mulher afirma que nós – precisamos – do machismo. Da primeira vez que o assisti, fiquei com muita vontade de escrever sobre ele, mas a vida andou e acabei esquecendo. Até que uma pessoa me mandou ele novamente, pedindo para que eu comentasse sobre ele, porque ela tinha algumas dúvidas com relação ao Feminismo. Segundo essa pessoa, o Feminismo lhe parece que está muito “extremo no mundo”, e ela ainda queria saber porque as mulheres “querem os mesmos direitos, mas não os mesmos deveres”.

Assim, inspirada pelo 8M e por todas as discussões das quais venho fazendo parte, além das reflexões “internas” que faço ao ter contato tanto com feministas, como com pessoas ainda tão resistentes ao Feminismo, resolvi pegar cada ponto da dúvida e das colocações do vídeo, e esmiúça-los, a fim de esclarecer algumas confusões. Não sou nenhuma doutora no assunto e ainda tenho muito o que aprender e me desconstruir, mas quis mesmo falar numa linguagem bem simples, para que outras pessoas que estejam abertas ao diálogo, também possam se colocar para pensar um pouco mais e não sair por aí como essa moça, compartilhando inverdades.

Também não sou dona da verdade e essa é só uma contribuição que pode (ou não) acrescentar a formação das suas próprias convicções. Depende da sua abertura. Saibam que essas também já foram minhas dúvidas e de outras pessoas ao meu redor que passaram a respeitar e até fazer parte do movimento. Imaginem que em 2012 eu afirmava que não era feminista porque dizia que não acreditava em extremos. Sorte que com muita leitura, conversas e escuta empática, fui desconstruindo muitos dos mitos que insistem em deslegitimar e tentar enfraquecer o movimento.

O maior problema desse vídeo é como ela cruza dados reais (nem todos) com colocações completamente ignorantes, no sentido de que ela desconhece totalmente do que está falando. E como isso é perigoso! Você compartilhar uma “opinião” (apesar de eu acreditar que preconceito nunca é opinião) a fim de influenciar terceiros, sem ter um mínimo de cuidado e conhecimento do que está falando.

Mas vamos lá! Como brincamos, o Feminismo é um tanto pedagógico e já estamos acostumadas a sentar e explicar algumas inverdades que insistem em nos enfraquecer. Saibam que eu gostaria de estar fazendo outra coisa, como focando nos estudos da faculdade de Psicologia, arrumando umas gavetas e aprendendo francês, mas me sinto na obrigação de descortinar certas mentiras que circulam por aí.

Vou por partes pra ficar mais fácil.

Sobre a afirmação de que o Feminismo hoje “chegou a um extremo no mundo”, discordo totalmente. Primeiro que não podemos tomar o mundo a partir da nossa realidade. Dizer que o Feminismo chegou a um extremo porque ao seu redor ele ficou mais evidente, é fechar os olhos para tantas outras realidades. Cada vez mais tenho contato com outros contextos e mulheres inseridas neles. Confiem em mim, na grande parte do nosso Brasil e do mundo, o Feminismo e a questão do protagonismo, empoderamento e igualdade ainda não se fizeram presentes. Ainda sobre esse extremismo, o Feminismo é um movimento bem amplo, aonde cabem muitos Feminismos, e assim como qualquer movimento, teremos das feministas mais “de boas” às mais guerrilheiras. Eu, particularmente, não sou das mais ativas, mas aprendi a entender que pessoas dispostas a alcançar o “extremo” são importantes. Nunca conquistamos nada sendo boazinhas e gentis. Além do que, vivemos um momento de transição social nesse sentido de igualdade de gêneros e os extremos são o que, muitas vezes, aceleram o processo. Entendem? Ninguém nunca, por si só, através de uma “auto reflexão” se deu conta do que estava acontecendo. Por isso, precisamos mostrar, explicar, demonstrar e às vezes, precisamos chegar a um extremo para que a mensagem seja transmitida e produza algum efeito.

Sobre querermos os mesmos direitos, mas não os mesmos deveres… O Feminismo é um movimento que busca a igualdade de direitos e que busca desconstruir o que chamamos de estereótipos de gênero. Aqueles básicos como “mulher é delicada, nasceu pra cuidar da casa, dos filhos” e “homem tem que ser o provedor, violento e protetor”. Ele busca, resumidamente, a desconstrução do machismo, que é prejudicial tanto para mulheres como para os homens. E é aí que está a maior desinformação da mulher do vídeo, ao usar dados e assuntos que também merecem destaque e problematizações, mas que também são causados em maior ou menor grau, pelo machismo.

Começando com o primeiro dado, em relação à guarda dos filhos. Acho que não preciso nem explicar porque antes de 2014, ano em que foi aprovada a lei da guarda compartilhada como regra, na maioria dos casos de separação, as crianças ficavam com as mães, né? As mães eram quem ficavam responsáveis pelo cuidado dos filhos, por isso, quando acontecia o divórcio, eram elas quem ficavam com eles. E até aonde eu sei isso não foi uma luta das mulheres, mas algo que se colocou naturalmente de acordo com a realidade da época. E também nunca soube que a conquista da guarda compartilhada foi uma luta por parte dos pais, que se sentiam prejudicados com a situação. Porque conheço MUITOS casos de pais que simplesmente desapareceram da vida dos filhos após a separação. E o máximo que a mãe poderia cobrar era uma pensão em dinheiro (que também precisou de lei que envolve prisão para funcionar efetivamente), por que como cobrar amor e responsabilidade ou reconhecimento da paternidade? E não pensem que a lei da guarda compartilhada mudou muita coisa, porque surgiram outros dilemas, como o caso da alienação parental. Tenho algumas amigas separadas/divorciadas que alegam que, mesmo com a guarda compartilhada, na prática, o pai vê os filhos de 15 em 15 dias SE ele quiser. Falando nisso, sempre fico pensando nas mães que fogem da regra e agem como esses pais. Elas são EXTREMAMENTE julgadas e criticadas. Existem mães que abandonam os filhos? Com certeza, mas esse é um outro problema a ser discutido e com certeza é num número irrisório perto da quantidade de pais que abandonam a paternidade depois que o relacionamento não deu mais certo.

Sobre o número de mortes, que não é de 9 para um (em 2011, os dados eram de 420 mortes de homens para 100 de mulheres). É verdade sim que homens morrem mais (e também se suicidam mais). Homens morrem mais, mas morrem nas mãos de outros homens e por questões ligadas à violência, no trânsito (são estimulados a correrem, chegarem primeiro, serem os melhores), por consumo de bebida (nem preciso dizer como homens são estimulados a beber) e por questões relacionadas ao tráfico. Eles se suicidam quando estão desempregados e impossibilitados de desempenharem o papel de provedor da casa e da família. Na verdade, mulheres tentam mais o suicídio, mas os homens tem mais “sucesso” porque tem acesso mais fácil à armas de fogo. E tudo isso também é resultado do machismo, a ideia da supremacia do macho, que se não é atingida, leva o sujeito ao total declínio e angústia.

O dado relacionado ao fato de homens chegarem em menor quantidade às universidades é problematizável e depende muito de quais cursos estamos falando. Sim, homens são incentivados desde pequenos à trabalhar. E MUITAS mulheres que eu conheço iniciaram uma graduação justamente porque não foram estimuladas a trabalhar e estudaram para “passar o tempo”. De qualquer forma, segundo dados de 2016, apesar de as mulheres serem maioria nas escolas, universidades e cursos de qualificação, elas ainda recebem menos do que os homens para desempenharem as mesmas atividades e estão mais sujeitas a trabalhos com menor remuneração e condições mais precárias. As engenharias, por exemplo, tem mais homens e cursos que trabalham com cuidados de saúde tem mais mulheres. Não preciso nem dizer por que né? E isso não tem nada a ver com biologia, mas com uma construção social. Ah, e adivinhem quais são as profissões que ganham mais?

Sim, eles tem menos tempo de licença paternidade e isso também é totalmente problematizado por nós. A questão é que ao contrário do que ela insiste em dizer, uma luta não deslegitima a outra. Ao contrário, está tudo ligado! Tenho contato com MUITAS mães e tenha certeza que a maioria adoraria que o pai tivesse mais tempo de licença. Vocês não imaginam como seria um sonho ter com quem dividir de perto os desafios dos primeiros meses. Se os pais tivessem a licença estendida e também saíssem do trabalho quando um filho fica doente ou a escola está em greve, por exemplo, homens e mulheres teriam até mais condições de disputar de forma igual vagas de emprego. Porque mulheres muitas vezes não são contratadas ou porque estão em idade fértil e logo irão ter filhos ou quando tem os filhos, porque precisam de horários flexíveis para poderem cuidar deles. Quando engravidamos, ouvimos “e como você conciliará carreira com família?” (e saibam que esse tema é uma das maiores angústias e dilemas das mães). Nunca ouvi perguntarem isso à um homem.

Sobre o dia internacional. Vocês sabem por que o 8 de março? É uma forma de marcar um ato de mais de cem mulheres que foram violentadas e mortas (queimadas trancadas dentro de uma fábrica) simplesmente porque eram mulheres e por pressuposto, não tinham o direito de se manifestarem por melhores condições de trabalho. Se algum dia, homens forem mortos ao reivindicarem uma violência que sofreram só porque são homens… O dia não serve para ganharmos mimos e abraços mas para marcarmos a importância da luta dessas mulheres que morreram para que eu pudesse estar aqui cursando uma segunda faculdade, dividindo as tarefas da casa com o marido e explicando tudo isso.

Homens são a maioria dos moradores de rua porque tem mais problemas com álcool e drogas e com um “não dar conta” de cumprir seus supostos papéis sociais. Mas ainda essa semana ouvi um morador de rua que foi na Assembleia cobrar medidas com relação à situação das mulheres moradoras de rua. Disse que além da vulnerabilidade das ruas, elas sofrem MUITO mais violência por serem mulheres. Dá pra entender como existem questões que são super importantes de serem levantadas, mas como ser mulher exige um pouco mais de atenção? E isso não é vitimização ou caridade, é a pura realidade.

Com relação à saúde, homens morrem antes (e isso eu constatei quando trabalhei na Vara de Sucessões, aonde a maioria das inventariantes era mulher) porque não são estimulados a cuidarem de si, do seu corpo, da sua saúde e das suas emoções. Crescem com referências de super heróis, que não falam sobre seus sentimentos e que resolvem tudo na base da violência. Homem que se cuida e que se aproxima do estereótipo do dito feminino, que age como “mulherzinha” sofre tanto preconceito quanto mulheres (o ódio ao feminino aparece no índice de mortes por crimes de homofobia e transfobia). Homem tem que ser macho, durão e invencível. E não pode chorar. Cuidar da saúde é coisa de bichinha. Homem morre de câncer de próstata porque tem vergonha de fazer o exame. Já soube de váááááários casos de homens que morreram ou porque não aceitaram fazer o exame ou porque não quiseram operar, o que pode causar impotência sexual.

Sobre o exército é outra questão super “problematizável”. Pais militares criam filhos para serem militares porque o exército é lugar de macho. Isso já vem mudando, mas se vocês soubessem como é difícil uma mulher ocupar um espaço tão masculinizado. Ela sofre humilhações, violências, precisa se masculinizar para ganhar algum respeito e provar que é competente, “mesmo” sendo mulher. Isso acontece também em ambientes como obras, fábricas… Escrevi um texto enorme só sobre isso, em outra ocasião. Porque cobram que adentremos esses espaços, mas quando o fazemos somos violentadas, hostilizadas… Pensam que é fácil suportar toda essa opressão?  Elas muitas vezes desistem não porque querem direitos, mas não deveres, mas porque a convivência se torna impossível.

O cálculo da previdência também foi usado de forma leviana. Você sabe por que mulheres se aposentam antes? Calcula-se que a mulher trabalhe 3 horas a mais que o homem diariamente na tripla jornada trabalho-filhos-casa. O cálculo se dá com base nisso. Não é mordomia, é o reconhecimento de um trabalho que não se remunera. Quem sabe um dia, quando homens entenderem DEFINITIVAMENTE que o cuidado da casa e dos filhos não se faz porque se tem uma vagina e passem a fazer a sua parte, o cálculo possa ser igual. E não pensem que a realidade de hoje é muito diferente da época da minha avó. Se vocês soubessem a quantidade de amigas em pleno 2017 que relatam o total desinteresse do marido diante das suas responsabilidades. Mas elas ainda funcionam na lógica de que melhor casada com um bundão, do que solteira. Tem umas que me relatam histórias que me deixam indignada e no dia seguinte, postam foto da família perfeita para atestarem para a sociedade que elas conseguiram e cumpriram seu papel social.

A parte do Titanic chega a ser hilária e realmente, colocaram mulheres e crianças primeiro e a parte das mulheres é sim fruto do machismo, porque naquela época as mulheres eram mesmo consideradas indefesas e por isso, necessitadas da “bondade” do homem. Isso ainda acontece, mas a cada dia em menor grau. As pessoas também costumam confundir machismo com gentileza. Um homem abre a porta para a mulher e isso não será machismo se ele fizer o mesmo para um amigo ou colega. Gentileza não pressupõe gênero, mas um coração bom. Mulheres tem mãos e sabem abrir a porta e isso não é ser “mal amada” ou “mal comida” ou não reconhecer a atitude do outro, mas o machismo mora nos detalhes e são esses detalhes que fomentam o machismo violento, aquele que mata e mata MUITO (dados de 2011 já são totalmente desatualizados e nem podem mais servir de referência).

Fui procurar dados e achei um texto dizendo que homens morrem mais que mulheres por violência doméstica (li essa semana num cartaz no 8 de março que dizia que mulheres morrem 6,6 vezes mais que homens – mortos por mulheres). Olha, se você me contar dois casos de homens que foram mortos pela mão das suas companheiras ou porque queriam trabalhar fora, ou porque queriam terminar o casamento (o que muitas vezes acontece porque elas não aguentam mais aquela convivência), ou porque saíram com os amigos para beber, ou porque usaram uma saia curta, eu posso sentar e repensar o caso. Os casos que eu conheço, eles morreram como forma de pôr fim na tortura que praticavam com suas mulheres. Mas eu posso contar agora assim, sem pensar, a história de umas 30 mulheres que morreram só esse ano. Uma inclusive estava amamentando o bebê e morreu a facadas. Outro caso essa semana, bem fresquinho. O marido indignado com a ex esposa que se separou e estava voltando a viver, matou os dois filhos a facadas, mandou fotos pelo whatts pra ela e depois se suicidou. Ela tinha feito vários registos na polícia e ele matou ela, não fisicamente, mas de todas as outras formas.

Então, parem de querer enfraquecer o movimento, por que quem ele prejudica? Quem? Algum homem retrocede quando uma mulher avança? Eu entendo que alguns se sintam meio perdidos diante de tantas desconstruções. Também é difícil reconhecer que nossa forma de pensar e existir de, alguma forma, oprime outra pessoa. Mas não dói reconhecer que na nossa sociedade, homens tem alguns privilégios a mais. E por mais que alguns sejam solidários ao movimento e tal, só sendo mulher pra saber o que é ser mulher na nossa sociedade. E isso não é vitimização, é pura constatação da realidade. Toda mulher ou menina tem uma história de algum tipo de violência. Eu já fui assediada grávida ou com filho no colo. E o discurso é tão introjetado que muitas vezes nem nos damos conta do que acontece conosco. Sentimos vergonha, culpa…

Como essa mulher pode falar que precisamos do machismo? Isso me deixa extremamente triste e indignada. Precisamos de igualdade, de respeito, de gentileza, de paz, de amor. Não precisamos de uma cultura machista, que oprime mulheres e massacra os homens.

Venho pensando muito que eu queria estar estudando e defendendo outras coisas. Tem tantas lutas que também são importantes. Eu queria ocupar meu tempo só estudando Psicologia, por exemplo, e mostrando para as pessoas a beleza e a importância de se conhecer melhor, mas não consigo fingir que nada está acontecendo. E já foi provado através de estudos que, naturalmente, nenhuma mudança acontece. Veja o último discurso do nosso presidente que só legitima a mulher que fica dentro de casa. Isso é um retrocesso absurdo. Imagina se ficássemos prostradas e caladas diante de tanta discriminação?

O texto ficou enorme, mas ao contrário dessa mulher, eu não quis ser rasa e leviana nas minhas colocações.

E pra quem ainda não associa a ideia do machismo, da suposta masculinidade exigida dos meninos e dos homens, à todos os problemas que os homens também enfrentam, sugiro que assistam no Netflix, o documentário “The mask you live in”.

Seguimos, rumo à próxima desconstrução da série “Feminismo Pedagógico”.

| Queremos mais do que flores |

Queremos mais do que flores

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Essa semana se comemorou o Dia Internacional da Mulher e há alguns anos, algo me incomoda nessa data, mas foi só depois que me aproximei do Movimento Feminista e comecei a me considerar uma – mulher e feminista – é que entendi o porquê. Existe muita exaltação da figura da mulher, muitas mensagens prontas, supostos presentes e elogios, mas poucas atitudes práticas. Porque até onde eu sei, a criação do dia em si não diminuiu o número de mulheres que morrem assassinadas todos os dias, seja dentro de casa, na mão dos seus supostos companheiros ou na rua, porque de alguma forma, não se enquadraram no padrão imposto e esperado pela sociedade.

Quem me acompanha há algum tempo, deve ter percebido como sou apaixonada pelo universo das mulheres, tanto que penso muito em trabalhar especificamente com elas depois que me formar em Psicologia. Admiro a força, as potencialidades, as fragilidades e como ainda conseguimos existir e resistir, mesmo numa sociedade tão – silenciosa e, às vezes não tão, sutilmente – machista, misógina, opressora, desigual e violenta. E por toda essa admiração e consciência social, aproveito esse espaço para levar essa reflexão o mais distante possível. Não venho falar do dia da mulher apenas como uma forma de reforçar o discurso que insiste em dizer que somos super poderosas, guerreiras e fortes, porque sim, de fato, somos super poderosas, guerreiras e fortes, mas por trás desse discurso há muita hipocrisia e uma cobrança disfarçada. A grande maioria é guerreira e super poderosa não porque nasceu mulher, mas porque precisou.

Somos cobradas (e nos cobramos porque somos atravessadas por esse discurso) a estudar, trabalhar, ter filhos, cuidar da casa, cuidar do corpo, a nos comportar, não reclamar, fechar as pernas, abaixar a saia e diminuir o decote. E se algo de ruim nos acontece, ainda somos responsabilizadas por isso. Desde o segundo em que chegamos ao mundo, somos adornadas com laços, brincos e sapatos. Já nos mostram como a nossa imagem é importante. Não nos deixam ser apenas bebês e crianças, com as cabeças livres e roupas confortáveis. Nascemos para enfeitar, não à toa, adjetivos referentes à nossa beleza chegam antes de qualquer outro.

E não achem que isso é vitimização, é apenas um relato da realidade, das estatísticas e das notícias que cada vez mais tomam os meios de comunicação. E nem é falta de reconhecimento da grandeza das mulheres, só penso que ela poderia aparecer sem tantos sacrifícios, sem tantas marcas e sem tantos obstáculos. Poderíamos lutar por uma sociedade melhor, correr atrás dos nossos sonhos, crescer com sofrimentos que são naturais, mas sem precisar, ao mesmo tempo, provar que somos boas, “mesmo” com uma vagina e um útero.

Assim, que nessa semana, nesse mês, ou melhor, no ano inteiro, sejamos lembradas como alguém de direito. Porque não adianta a empresa dar rosas para suas funcionárias, mas pagar menos ou as demitir porque tem ou desejam filhos. Não adianta a grande rede de livrarias dar desconto para as mulheres, mas só para os livros que ela acha que nos interessarão. Queremos mais, queremos melhor, queremos aquilo que quisermos, não o que dizem que devemos querer.

Sou super solidária e admiradora das mulheres fortes que conheço, mas mais do que simplesmente olhar para elas e dizer “parabéns”, seguirei na luta por um mundo melhor para todas nós. Já conquistamos muito? Com certeza! Mas não sejamos inocentes, ainda temos um longo caminho pela frente.

Então, que sigamos juntas, porque queremos – e precisamos – muito mais do que flores!

Texto postado originalmente no Jornal Folha do Oeste.