| Queremos mais do que flores |

Queremos mais do que flores

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Essa semana se comemorou o Dia Internacional da Mulher e há alguns anos, algo me incomoda nessa data, mas foi só depois que me aproximei do Movimento Feminista e comecei a me considerar uma – mulher e feminista – é que entendi o porquê. Existe muita exaltação da figura da mulher, muitas mensagens prontas, supostos presentes e elogios, mas poucas atitudes práticas. Porque até onde eu sei, a criação do dia em si não diminuiu o número de mulheres que morrem assassinadas todos os dias, seja dentro de casa, na mão dos seus supostos companheiros ou na rua, porque de alguma forma, não se enquadraram no padrão imposto e esperado pela sociedade.

Quem me acompanha há algum tempo, deve ter percebido como sou apaixonada pelo universo das mulheres, tanto que penso muito em trabalhar especificamente com elas depois que me formar em Psicologia. Admiro a força, as potencialidades, as fragilidades e como ainda conseguimos existir e resistir, mesmo numa sociedade tão – silenciosa e, às vezes não tão, sutilmente – machista, misógina, opressora, desigual e violenta. E por toda essa admiração e consciência social, aproveito esse espaço para levar essa reflexão o mais distante possível. Não venho falar do dia da mulher apenas como uma forma de reforçar o discurso que insiste em dizer que somos super poderosas, guerreiras e fortes, porque sim, de fato, somos super poderosas, guerreiras e fortes, mas por trás desse discurso há muita hipocrisia e uma cobrança disfarçada. A grande maioria é guerreira e super poderosa não porque nasceu mulher, mas porque precisou.

Somos cobradas (e nos cobramos porque somos atravessadas por esse discurso) a estudar, trabalhar, ter filhos, cuidar da casa, cuidar do corpo, a nos comportar, não reclamar, fechar as pernas, abaixar a saia e diminuir o decote. E se algo de ruim nos acontece, ainda somos responsabilizadas por isso. Desde o segundo em que chegamos ao mundo, somos adornadas com laços, brincos e sapatos. Já nos mostram como a nossa imagem é importante. Não nos deixam ser apenas bebês e crianças, com as cabeças livres e roupas confortáveis. Nascemos para enfeitar, não à toa, adjetivos referentes à nossa beleza chegam antes de qualquer outro.

E não achem que isso é vitimização, é apenas um relato da realidade, das estatísticas e das notícias que cada vez mais tomam os meios de comunicação. E nem é falta de reconhecimento da grandeza das mulheres, só penso que ela poderia aparecer sem tantos sacrifícios, sem tantas marcas e sem tantos obstáculos. Poderíamos lutar por uma sociedade melhor, correr atrás dos nossos sonhos, crescer com sofrimentos que são naturais, mas sem precisar, ao mesmo tempo, provar que somos boas, “mesmo” com uma vagina e um útero.

Assim, que nessa semana, nesse mês, ou melhor, no ano inteiro, sejamos lembradas como alguém de direito. Porque não adianta a empresa dar rosas para suas funcionárias, mas pagar menos ou as demitir porque tem ou desejam filhos. Não adianta a grande rede de livrarias dar desconto para as mulheres, mas só para os livros que ela acha que nos interessarão. Queremos mais, queremos melhor, queremos aquilo que quisermos, não o que dizem que devemos querer.

Sou super solidária e admiradora das mulheres fortes que conheço, mas mais do que simplesmente olhar para elas e dizer “parabéns”, seguirei na luta por um mundo melhor para todas nós. Já conquistamos muito? Com certeza! Mas não sejamos inocentes, ainda temos um longo caminho pela frente.

Então, que sigamos juntas, porque queremos – e precisamos – muito mais do que flores!

Texto postado originalmente no Jornal Folha do Oeste.

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