|Sobre verão, memórias, coisas simples da vida…ou sobre o tempo|

Sobre verão, memórias, coisas simples da vida…ou sobre o tempo

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Foto: Renata Larroyd

 

Passamos a temporada de verão aqui em Jurerê há muitos anos e cada ano teve a sua peculiaridade. Dos mais recentes, lembro o que eu estava grávida do João e tudo ainda era muito novidade. Também lembro de um verão muito difícil, às vésperas de eu entrar na faculdade de Psicologia, aonde eu sentia uma angústia gigante e quase nem me aguentava. No seguinte, o Marco se recuperava de uma cirurgia no quadril e era o primeiro em que meus pais já não estavam mais casados. No verão retrasado, vivi um dos melhores períodos da minha vida, a espera pelo José. Mesmo super grávida, lidando com as restrições da diabetes e ficando uma boa parte do tempo, sozinha por aqui com o João, eu me sentia disposta, me preparava para o parto normal e curtia minha doce espera.

Cada estadia por aqui me desperta algo diferente e me faz precisar desenvolver alguma capacidade. Resiliência, paciência, determinação, malemolência. Aqui vivo momentos de alegria e de muito cansaço. Mas tudo num tempo diferente e eu acho que esse é o grande diferencial de passar um período fora do lugar aonde você vive a “sua vida”. Não mudar apenas de espaço, mas também a maneira como se vive e se conta (ou não) o tempo. Isso acontece quando viajamos para o exterior ou para a casa de um parente querido. Quando sentimos desejo de mudar de lugar, não é só de outro lugar que estamos precisando, mas de outro tempo.

Confesso que sofro um pouco com esse tempo diferente. Com a falta de rotina e de horários. Cada dia, uma atividade diferente, um estímulo novo para os meninos. Avós, tia, tio, visitas, vizinhos. Cafés coletivos, almoços emprestados, jantares que não tem hora para acabar. Barulho, cachorros latindo, buzinas, fogos estourando de repente. Controlo os horários o máximo que consigo, mas chega um momento em que eu desisto. Aqui estou sempre muito cansada (fisicamente), porque apesar de estarmos de “férias”, eu não descanso. Há sempre algo por fazer ou um José para cuidar.

Mas vim aqui dizer que pensando sobre o tempo, concluí que talvez seja isso que ficará registrado na memória dos meninos, assim como ficou na minha. Não a quantidade de tempo que passamos aqui, porque eu não lembro se passávamos um dia ou um mês de férias no Rincão, quando eu era pequena e ainda assim, foi lá que eu vivi uma grande parte das melhores memórias da minha infância. O tempo a que eu me refiro é o tempo com a família, é esse tempo em que não há escola ou grandes compromissos. Em que a mãe está quase sempre presente. Ou o pai, ou a vó, ou a tia. Que o que importa é a gelatina que está na geladeira, os almoços com a mesa cheia, a casa barulhenta (eu adorava dormir com a porta aberta ouvindo o barulho das pessoas da casa). Esses momentos em que de repente, aparece alguém ou uma mesa posta ou um bolo gostoso. Nada que envolve grandes luxos, porque as melhores memórias são aquelas mais simples. O fogão que faz o bolo, acende com fósforo (outro cheiro que lembra demais minhas passagens pela minha antiga casa de praia) e a nossa sala tem poucos móveis (aqueles que ninguém mais precisou).

Bem assim.

Claro que como tudo na vida, esses momentos duram um tempo e chega um tempo em que precisamos voltar para o tempo de sempre. Em duas semanas (olha eu contando o tempo), voltamos para a “cidade”, com a nossa rotina, nossos horários e compromissos. Aonde nem sempre há tempo para fazer um bolo e aonde a vó e a tia não estão na porta ao lado. Mas isso também é bom porque tudo que é gostoso dura o tempo que precisa durar para continuar sendo gostoso.

Pensando bem, o lado bom do tempo da cidade, que parece correr mais depressa, é que logo chega a nova temporada e uma nova oportunidade de viver um tempo aonde temos tempo.

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Sobre amar os filhos

Sobre amar os filhos

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Certa vez, ouvi que você dizer que ama o seu filho, tem pouco efeito na vida dele porque crianças percebem a vida muito mais através de demonstrações e exemplos práticos. Claro que é importante você lhe dar um abraço apertado e dizer o quanto o ama, mas também é muito importante você demonstrar esse amor através de gestos, como por exemplo: sentar para escutar (não apenas ouvir), com real interesse, sobre o sonho que ele teve ou a ideia para um novo desenho, deixar de fazer o que você está fazendo, por alguns minutos, para mergulhar na brincadeira dele, explicar com amor e calma porque ele não pode continuar se comportando de determinada maneira, acolher as suas angústias e entender que ele não lhe desafia por maldade, mas por ainda desconhecer sobre ele e seus sentimentos confusos. Entende? Porque não adianta você não lhe dedicar momentos do dia, estando presente e disponível para ele, estar sempre irritad@, gritanto, alterad@ e de repente, olhar para ele e dizer: “Te amo, meu filho”. É como receber mensagens truncadas, que não se conectam. Óbvio que em alguns dias faremos isso, porque estaremos cansados ou com algum problema sério a ser resolvido, mas na maior parte do tempo, precisamos ter esse cuidado de não esperarmos das crianças uma capacidade de compreensão para além das que elas tem disponível.

Esse vem sendo (mais) um super exercício para mim nos últimos tempos, demonstrar que amo meus filhos para além de só ficar repetindo isso para eles. Colocar em gestos, em olhares, em escolhas, todo o amor que eu desejo que eles percebam que eu tenho para lhes oferecer.

Novos hábitos para novos começos

Novos hábitos para novos começos

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2017 começou e o que eu mais vi pela internet, foram expectativas para que ele seja melhor do que foi 2016. Sem querer ser mensageira de más notícias ou uma ducha de água fria nas expectativas alheias, mas sinto informar que 2017 será exatamente como o ano que acabou, caso VOCÊ continue o mesmo.

Claro que existe um ar de novidade na chegada de um novo ano. Parece que ficamos um pouco mais motivados com a possibilidade de começar de novo, de colocar nossas metas em prática, mas toda essa motivação, se não for renovada e estimulada ao longo do ano, logo desaparece e voltamos a esperar que no próximo ano, algo se transforme.

Eu, em todo mês de janeiro, coloco-me a refletir sobre o que pretendo melhorar ao longo do meu ano. Minha primeira ação prática acontece ainda no final do ano anterior. Sempre separo uma semana para organizar todos os armários da minha casa, como uma forma de, física e emocionalmente, deixar espaço livre para que o novo possa aparecer. Tiro tudo, separo o que quero que fique e o que posso passar adiante, por que como podemos esperar pelo novo se não damos espaço para ele?

E isso também pode ser feito com as estruturas que nos sustentam. Não concordo com teorias que dizem que dá para recomeçarmos do zero. Desde que nascemos vamos enchendo nossa bagagem e não dá para simplesmente largarmos ela e adquirirmos uma nova. O que podemos fazer é olhar para “dentro” na busca de nos desfazermos daquilo que não precisamos mais. Isso inclui hábitos, convicções, atividades e relações que não fazem mais sentido.

Desde que aprendi numa aula de Antropologia no começo da faculdade de Psicologia que, às vezes, devemos estranhar o familiar e nos familiarizarmos com o estranho, procuro fazer esse exercício com certa frequência. Quais são meus hábitos? Quais os aspectos da minha vida que passam despercebidos porque já me são familiares? Também na faculdade, aprendi sobre o problema de naturalizarmos o psicológico, como se já nascêssemos com todas as nossas características. Ideia essa que, portanto, as torna imutáveis. Não, somos uma construção! Somos produtos e produtores do meio e se podemos aprender, podemos desaprender e aprender diferente.

Gosto muito de uma fala da Eliane Brum, que diz que “é preciso ser capaz de olhar para nós mesmos com estranhamento para que possamos enxergar possibilidades que um olhar viciado tornaria invisíveis. Esse é o processo de se desconhecer como uma forma mais profunda de se conhecer. Para novamente se desconhecer, e assim por diante. Exige muita coragem. Porque dá um medo danado“.

Assim, quem sabe o exercício de se estranhar não seja o que está lhe faltando para, de verdade, viver um novo ano. Estranhar-se, perceber-se como um quebra-cabeça que foi se montando ao longo da sua existência. Quais peças já não lhe servem mais? Quais precisam sair dali porque não foi você quem as colocou? Quais espaços precisam ficar livres para que você possa seguir um novo caminho?

Eu precisei me desconstruir e deixar espaços livres para que o novo pudesse chegar até mim. Como disse, não acredito que possamos “recomeçar do zero”. Isso é utopia, já que carregaremos toda a nossa bagagem de vida para onde formos. Nossos erros, nossas conquistas e as lições advindas deles, mas acredito que sim, é possível recomeçar.

Desde que deixemos espaço para tanto.

E desde que pratiquemos novos hábitos, para novos começos!

Texto originalmente publicado no Jornal Folha do Oeste no dia 14/01/17.

O que podemos fazer por aqueles que morrem

O que podemos fazer por aqueles que morrem

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            Eu tinha outro tema sobre o qual gostaria de escrever nesse último texto do ano, mas depois do que aconteceu na semana passada, não pude deixar de refletir a respeito do impacto que tragédias como aquela, produzem nas nossas vidas. Porque mesmo não gostando de futebol, mesmo nunca tendo visitado o oeste de Santa Catarina ou não conhecendo nenhum daqueles que perderam a vida na queda do avião, eu vivi e vivo um processo de luto, como penso que você também.

A morte por si só, já é um assunto que mexe comigo. Desde pequena, quando fico sabendo de alguém que morreu, conhecido ou não, sinto curiosidade a respeito da pessoa. O que ela fazia? O que deixou por fazer? Já pensei que esse meu sentimento fosse algo mórbido, mera bisbilhotice, mas hoje acredito ser uma maneira de tentar compreender melhor (como se fosse possível) essa imprevisibilidade do fim da vida. Porque é muito intrigante, num segundo, você estar ali, viva, cheia de sonhos, dúvidas, coisas para resolver, contas para pagar, tolices para se incomodar e no segundo seguinte, pluft, nada mais existir ou importar.

Intrigante e um tanto angustiante lidar com essa incerteza. Ainda mais para nós que a cada dia, estamos mais e mais acostumados a controlar nossa existência. Penso até que esse “não saber” é o que mais nos assusta diante de tragédias como a que ocorreu com a Chapecoense. Claro, também nos comovemos imaginando a dor daqueles que ficam, mas quando somos forçados a enxergar a brevidade da vida, nos chocamos. Porque naquele voo, ninguém imaginava que ali, havia chegado o seu fim. Morreu o pai que fazia planos sobre uma paternidade recém descoberta. Morreu o filho de uma mãe que aguardava a sua visita nas próximas semanas. E podia ter sido eu. Podia ter sido você. Aliás, a qualquer momento, pode ser eu e a qualquer momento, pode ser você. Ninguém está imune.

Mas então, o que fazer diante da incerteza que nos causa angústia, mas que ao mesmo tempo, é a única certeza que temos na vida?

Sinto muito, mas não tenho respostas prontas para essa pergunta. O que posso fazer, é compartilhar o que venho elaborando com tantas reflexões sobre o fim. Acredito que muito da angústia que sentimos seja pelo fato de estarmos insatisfeitos com o que estamos fazendo hoje com a nossa vida, enquanto ela ainda é nossa. Ao nos depararmos com o fim da vida do outro, olhamos para a nossa e percebemos o quanto a desperdiçamos.

O meu maior exercício ao ficar mexida com essa imprevisibilidade é me esforçar todo dia para ser uma pessoa melhor. Para mim e para o mundo. Confesso que quando penso na minha morte, não me preocupo com meu futuro no céu, mas com o que faço por aqui. Não tenho pretensão em garantir um espaço lá em cima, mas em dar sentido à minha existência e colaborar para esse mundo, aonde meus filhos viverão, se tornar um lugar melhor. Penso que viemos com uma missão, a missão de aproveitar a vida enquanto estamos vivos e fazer valer a pena.

Ah, a ideia anterior para meu último texto nesse ano, era falar sobre a importância de estarmos presentes nessas épocas festivas. Não só nos preocuparmos com presentes, roupas novas, fotos postáveis e metas bonitas para o próximo ciclo, mas estarmos definitivamente presentes aonde estivermos. Há uns 3 anos, sempre escrevo algo nesse sentido em dezembro, para lembrar o que penso ser, o verdadeiro sentido dessa época. Num mundo cada vez mais veloz, descartável e aonde passamos mais tempo olhando para telas do que para o rosto de outras pessoas, você se propor a estar verdadeiramente presente numa conversa, num encontro, é o melhor presente que pode oferecer.

E bem no fim, um assunto acabou tendo total relação com o outro, porque se a vida é assim tão breve, como esse acidente nos lembrou, nada mais importante do que você estar sempre presente no que está fazendo. Para que quando você partir, as pessoas não fiquem só com os seus sapatos não calçados ou as contas a serem pagas, mas com a lembrança do som da sua risada, do tempo que você dedicou à elas e da ligação que você fez numa terça feira qualquer.

O que podemos fazer por aqueles que morrem?

Viver!

Boas festas para vocês e nos vemos em 2017.

Assim, espero.

Texto originalmente publicado no Jornal Folha do Oeste em 10/12/16

Sobre meu retorno à terapia

Sobre meu retorno à terapia

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Na semana passada, quando retornei para a psicoterapia, tive a oportunidade de recontar a minha trajetória até aqui, já que estou com uma nova psicóloga. Sempre acho muito engraçado e estranho esse primeiro contato, aonde contamos nossa história, através das nossas lembranças e percepções. Conto meu passado, com meus olhos do presente e inevitavelmente, a cada vez que reconto, é como se vivesse tudo de novo, mas ao mesmo tempo, ressignificando tudo o que aconteceu.

Geralmente, começo com o motivo da minha primeira ida à um consultório, na época da adolescência. Depois sigo pela relação com os meus pais, pelas mudanças que foram acontecendo quanto às minhas escolhas profissionais, pela forma como a maternidade adentrou minha vida e como eu e meu companheiro, fomos nos entendendo diante de tantas transformações.

Mas por que estou escrevendo sobre isso? Primeiro, porque ao retornar à esse lugar de paciente, senti uma necessidade de voltar a escrever e segundo, porque essa semana encerro, oficialmente, mais um ano dentro do curso de Psicologia e um ano em que eu retornei ao curso depois de ter trancado o mesmo período. Se eu disser que nem parece que há quatro anos fiz essa escolha, estarei mentindo, porque nesses quatro anos, vivi um milhão de experiências e senti sim o passar do tempo, mas realmente, em algum grau, o tempo passou rápido. Ainda consigo sentir a angústia que me invadiu lá em 2012, ao chegar à conclusão de que essa era minha escolha, o medo de anunciar minha decisão e a tristeza com as reações que presenciei. Claro que, de alguma forma, recebi apoio e condições de cursar uma segunda faculdade, mas demorou mais de um ano para que todos ficássemos confortáveis com as novas redefinições dos lugares.

A ideia desse texto não é esmiuçar essa fase, até porque já escrevi bastante sobre ela, mas olhar para trás com carinho, gratidão e me preparar para o que está por vir. Porque apesar de já ter resolvido muitas questões difíceis para mim, ainda tenho alguns vários emaranhados para desfazer. Novos desafios, novas reflexões e novos enfrentamentos.

Desde que soube que estava grávida do José, larguei a terapia. Primeiro, porque precisei fazer algumas escolhas e financeiramente, não era mais viável despender a quantia que pagava por mês e segundo, porque estava mexida o suficiente e não me sentia preparada naquele momento para futucar certas feridas antigas. Hoje, vejo que essa decisão foi boa em alguns aspectos porque sozinha, e de maneira processual, consegui resolver algumas questões e o tempo, foi meu aliado e porque amadureci de várias maneiras nesses últimos dois anos e agora consigo encarar certas questões mais de frente.

Acredito muito que nossa vida passa por fases, como as estações do ano. Até 2015, vivi a calmaria após a turbulência que foi o meu ano de 2012. Pude respirar aliviada depois de expurgar milhares de dores que me acompanharam por uma vida inteira. Aí, logo no começo de 2015, José nasceu e junto com ele, nasceu uma nova necessidade de me desconstruir, em vários sentidos. Depois de 2 anos estudando e vivendo uma faculdade que me fazia muito feliz e já com bastante autonomia porque João estava um pouco maior, fiquei praticamente 1 ano inteiro em casa. Que período difícil. Além da questão hormonal e da readaptação da rotina da família com a chegada de um novo membro, precisei interromper meu processo de criação e produção escrita e dar prioridade à satisfação das necessidades instantâneas dos meus filhos. Sim, eu escolhi me dedicar à maternidade nesse período e sabia que estar presente era importante, mas isso não me impediu de também sentir muita falta de outras áreas da minha vida que me eram muito caras e necessárias.

Enfim, chegou 2016, e em fevereiro eu retornei às aulas! Que maravilha. José entrou na escolinha, no final de fevereiro e João passou a estudar de manhã – e à tarde ficar comigo. Demorou um tempo até que a nossa nova rotina se estabelecesse e eu conseguisse encontrar, de novo, tempo para escoar minha criatividade, escrever, ler, refletir…sobre outro assunto que não fosse a maternidade. Porque claro que cuidar dos filhos também é uma forma de criação. Criar modos de interação, de construção de laços, de espaços de tempo para demonstrar amor, afeto, cuidado. Mas só quem ama MUITO o que faz, sabe como ter um tempo definido para tanto, é tão vital, como respirar.

O mais legal de todo esse processo é que no fim, uma área foi (e vai) complementando a outra. O ano de faculdade trancada foi um desafio pra mim, mas também me trouxe maturidade, novas perspectivas, novas trocas, novos encontros. Assim, como o retorno à faculdade nesse ano também acrescentou muito na minha maternidade e na minha relação com os meus filhos. Não só pelo fato de aprender novas teorias e construir novas reflexões (e, sem grandes pretensões e intenções, transpô-las para o meu maternar), mas também porque fui me transformando e como uma pessoa mais feliz, me tornei uma mãe mais feliz. Entendem?

E assim, chego a esse final de 2016. Totalmente transformada. Não perfeita, sem dilemas, sem imperfeições, dúvidas ou arestas. Mas a cada dia, uma versão mais próxima da que considero meu ideal hoje. E mais leve, menos preocupada com a opinião dos outros ou em ser aquilo que esperam de mim, menos ocupada para parecer importante ou sustentando aquilo que eu não sou e aprendendo a conviver com as minhas inconstâncias. Ah, e de volta à terapia, que mesmo só com duas sessões já causou um mega impacto no meu modo de existir.

Já até coloquei meu livro para pegar sol. Sim, meu livro que estava praticamente pronto, com as ilustrações, prefácio e orelha escritos, mas que há dois anos dorme dentro de uma gaveta. É, todos temos nossas sujeiras psíquicas varridas para baixo de um tapete. Basta percebermos um momento bom para que as varramos para fora.

Seguimos.

E viva a crise!

E viva a crise


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            Uma das palavras que mais escutamos nos últimos tempos é crise!

Crise política, crise econômica, crise ambiental, crise na segurança pública. Também escuto muito sobre crise de identidade, crise no casamento…sempre num sentido negativo, mas você sabia que o termo crise também carrega consigo um significado positivo? Aprendi num curso, que krisis, que vem do grego, quer dizer decisão, sentença, juízo, separação, ou seja, um momento de transição e mudança.

Confesso que eu sou suspeita para falar sobre esse assunto porque acredito, de verdade, no potencial que existe nos momentos de catarse. Num determinado ponto da minha vida, percebi que focamos tanto em buscar um equilíbrio, quando são os desequilíbrios, os momentos de crises e interrupções que nos movimentam.

Você já observou como a maioria das obras – filmes, livros, sagas, letras de música – envolve algum momento de sofrimento que impulsionou a sua criação? Pelos mais variados motivos, insatisfações, inquietações, somos retirados da zona de conforto e nos vemos obrigados a ir em busca de alguma mudança. Momentos de quietude e calmaria também são necessários, porém, quando estamos extremamente equilibrados, acomodados, tendemos a ficar por ali mesmo.

Claro que, como nem sempre o início desse processo de transformação é voluntário, perceber-se adentrando um campo desconhecido e não saber o que acontecerá depois da ruptura, pode gerar certa angústia. Mas acredito ser possível respeitarmos também o que não vai bem. Isso não significa procurar sempre ver o lado bom das coisas, ou sorrir diante de uma situação absurda ou aturar algo insuportável, mas em tão somente respeitar e aceitar e diante desses momentos de crise e catarse, que estão postos e na maioria das vezes, são inevitáveis, refletir e pensar em como podemos sair dali. Jamais se acomodar, estagnar-se ou se submeter.

É como um ciclo, que nos dá a ideia de um eterno movimento. O que não vai bem também faz com que a vida tenha sentido. É aquela luz vermelha que às vezes se acende no painel da nossa Kombi que nos faz levarmos ela para a oficina. É uma pedra no caminho que nos derruba enquanto andávamos distraídos, que nos faz ficarmos mais alertas. É perdendo alguma coisa, que muitas vezes, aprendemos a dar valor para ela. O que às vezes parece algo de uma exclusiva conotação negativa, muitas vezes é o que nos faz iniciarmos um processo de movimento.

O que às vezes parece ser o fim pode na verdade se mostrar um começo.

Não, não penso que a vida precise ser difícil o tempo todo ou que só possamos aprender com o sofrimento. Apesar de enxergar muita beleza nessas quebras e rupturas, sei que não pe fácil e leve viver esses períodos, mas de verdade, consigo visualizar a importância dos desequilíbrios e das crises que nos acometem, vez ou outra.

Assim, hoje quero convidar você para aproveitar a sua possível crise atual para repensar o que pode nascer desse momento que separa o que foi do que está por vir. O que pode surgir do que a princípio pode parecer uma grande confusão, mas que na verdade, é uma oportunidade de criar, de inovar e de enxergar diferente.

Apesar dos pesares, respire fundo e tenha sempre em mente que depois da crise, você precisa fazer nascer o sol.

Texto publicado, originalmente, no jornal Folha do Oeste em 12/11/16.

O que você fez com o seu ano?

O que você fez com o seu ano?

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Estamos a cada dia mais próximos do final do ano e, tenho certeza, que logo começarão as lamentações sobre como ele passou voando.

Mas será, será que ele passou voando ou estávamos distraídos demais para notar o seu andar?

Assisti uma palestra algum tempo atrás, aonde escutei que a todos nós, são dadas 24 horas todos os dias e cabe a cada um, utiliza-las da forma como desejar. A partir dessa escuta, passei a me perguntar: o que eu faço com as minhas e com todas as possibilidades que me são oferecidas? Como aproveito meus minutos, horas e dias? Resolvi, então, estender esse questionamento ao ano porque ele também passa igual para todos. Porém, enquanto alguns preenchem os 365 dias que lhes são dados, com novas amizades, mudanças, desafios, viagens, livros e pessoas, durante o mesmo punhado de semanas e meses, outros continuam, exatamente, no lugar de onde partiram! Não se desafiam, mergulham alienados e inertes numa rotina monótona, adiam mudanças e encontram milhares de desculpas para continuarem os mesmos.

Portanto, todos tiveram 365 dias a partir do primeiro dia de janeiro passado, e o que diferenciou as pessoas durante esse período, foi o que cada uma fez com aquilo que lhe foi dado.

Confesso que não entendo quem vive reclamando quando dezembro se aproxima, como se alguém houvesse lhe roubado os dias. Talvez seja por hábito ou por parecer importante você se mostrar ocupado ao dizer que o tempo passou voando, mas pense, o que você estava fazendo de tão automático que nem percebeu o relógio correr? Ou por que você atribui ao tempo a responsabilidade pelo modo como tratou o seu passar?

Eu, ao contrário de muitas pessoas, não acho que o tempo passou voando porque reconheço e respeito TUDO o que me aconteceu nesse ano que vem chegando ao fim. Olhando para trás, consigo enumerar milhares de experiências importantes que vivi nos últimos meses. Concluí duas fases do curso de Psicologia, participei de outros cursos, vi meus filhos crescerem, meu bebê aprender a andar e falar, viajei para o exterior… Mas nem só de grandes eventos, um ano é feito. Nesses meses, também mudei de ideias, me frustrei, me desconstruí e aprendi lições importantes. Claro que vivi dias e semanas que voaram no meio da rotina que me engoliu, mas não vou focar ou resumir a minha vida, naquilo que me faltou ou naquilo que não teve tanta relevância.

E você? Consegue listar tudo o que fez e o que aconteceu na sua vida em 2016? Será que mesmo depois de fazer essa lista, você vai continuar dizendo que o tempo passou rápido demais?

Assim, deixo esse texto como um convite à reflexão sobre o que você estava fazendo enquanto o relógio andava com os seus ponteiros ou um convite para que você olhe para trás como uma forma de reconhecer tudo o que você fez nesses últimos meses, ao invés de ficar por aí resmungando sobre a passagem do tempo.

Lembre-se que esse compositor de destinos, tambor de todos os ritmos, como já diria Caetano, estará para sempre presente na nossa vida, então, que não sejamos controlados ou escravos dele. Que o controlemos, no sentido de saber como bem utilizá-lo.

Ah, e você ainda tem uns dias antes de 2016 chegar ao fim.

Faça bom proveito!

Texto publicado, originalmente, no jornal Folha do Oeste no dia 08/10/16.

Em (des)construção

Em (des)construção

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Há algum tempo, quando precisava me definir para qualquer fim, sempre me vinha a noção de que eu era um ser “em construção”. Passei tanto tempo em busca de quem eu era, o que eu desejava, para além das expectativas alheias, que acreditava que haveria de existir em algum lugar, uma definição pura e genuína, descolada do meu externo e do que os outros diziam que eu era e o que eu queria. Bastava que eu encontrasse dentro de mim, um “eu interior”, uma resposta para todos as minhas perguntas.

Hoje, já não acredito no que acreditava antes. Não penso que exista um eu anterior ou que exista qualquer definição que me encerre. Nesse ano, quando completei trinta voltas ao sol, passei a acreditar (passei a acreditar porque não penso que exista uma verdade absoluta, mas algo que escolhemos acreditar), que não nascemos nada, que não existe um buraco dentro de mim que abrigue a minha essência e que eu não posso me descolar justamente daquilo que me estruturou da forma como sou/estou hoje. Depois de ler e pensar, passei a me entender como um ser que, desde que nasceu (para não dizer antes), foi sendo construído, inserido numa infinidade de atravessamentos familiares, culturais e sociais. Sei que nem todos pensam como eu, e tudo bem, mas acho que independente da forma como pensamos sobre nós, é sempre válido refletirmos porque somos como somos, pensamos como pensamos e agimos como agimos. Independente das nossas convicções, é impossível existirmos sem aquilo e aqueles que nos rodeiam.

Portanto, as minhas perguntas mudaram de “quem eu sou?” para “por que eu sou como sou?”, ou “quem eu não sou?”, ou “quais discursos me atravessam?”, porque se eu partir do pressuposto de que já existe um lugar com as respostas, uma definição, algo imobilizado como essência, qual seria a graça de viver?

Não acredito mais numa identidade fechada e inata, justamente porque também acredito que talvez a graça seja justamente esse desconhecimento, as delícias que descobrimos durante nossas reflexões. Essa possibilidade de transcendermos a nossa existência. Acredito que talvez a busca, e não o destino, aquilo que percebemos enquanto vasculhamos entre os alicerces, entre aquilo que precisa ir e aquilo que queremos que fique, por si só, possa nos guardar gratas surpresas e boas doses de autoconhecimento.

E mais, se desejamos nos transformar e transcender, é necessário encontrarmos lugar para que o novo nos invada e para isso, é importante essa noção de desconstrução.         Se você precisa de novos pilares, de novas janelas e de novas portas, precisa descontruir aquelas que já tem e que percebe que já não lhe servem mais. Como podemos esperar novas possibilidades, que penso ser o que sempre buscamos, se não damos espaço para elas surgirem?

A ideia não é recomeçarmos do zero, já que não dá para nos desfazermos de tudo o que trouxemos até aqui. Como disse uma vez meu professor de Psicanálise, ficar sem nenhuma referência, é muito angustiante. A ideia é esse estranhamento do que nos é tão familiar. Estranhar para compreender. Conhecer para transformar. Desconstruir para talvez, construir.

Assim, eu sigo em des-construção. E você?

Texto publicado originalmente no jornal Folha do Oeste. no dia 03/09/16.

 

 

 

 

Como você pode fazer diferente?

Como você pode fazer diferente?

07.13-04

            Se no último texto eu falei sobre medo, hoje escolhi escrever sobre criatividade, essa habilidade fundamental e vital, ainda mais em tempos de crise.

Já acreditei que ser criativo era um dom, mas como venho desconstruindo essa coisa de essência, de características inatas, hoje acredito que a criatividade é um potencial existente em todas as pessoas e pode aparecer com bastante exercício e dedicação.

Via de regra, percebo que tendemos à acomodação. Fazemos sempre tudo igual, comemos sempre as mesmas coisas, percorremos sempre os mesmos caminhos…até o dia em que algo nos impede de continuar no modo automático e nos vemos obrigados a pensar em novos modos de vida. Nessa hora, ou surtamos e insistimos em repetir os velhos formatos ou aproveitamos a oportunidade e nos perguntamos: Como posso fazer diferente?

Como você pode fazer diferente?

Elizabeth Gilbert, autora do best seller “Comer, rezar e amar”, em seu novo livro, “Grande magia: vida criativa sem medo”, diz que “viver criativamente” não significa que “você precisa virar poeta e ir morar no topo de uma montanha na Grécia”, mas você “viver uma vida mais motivada pela curiosidade do que pelo medo”.

Eu também não acho que a criatividade só é importante quando manifestada em grandes feitos, como obras de arte ou obras literárias. Podemos ser criativos no dia a dia e nas tarefas mais simples. Nosso poder de criação pode surgir num jantar feito com o que temos na geladeira, numa comemoração de aniversário em época de contenção de despesas ou numa maneira alternativa de resolver nossos velhos dilemas.

Indo um pouco mais além, ao deixar a criatividade fluir, também podemos criar novas rotinas, novos hábitos, novos jeitos de ser, de escolher e de viver.

Agora você pode estar se perguntando: “mas como deixar que o meu potencial criativo surja?”. Bom, a criatividade, mesmo quando presente em momentos de tensão e crise, precisa de espaço para poder aparecer. Primeiro, precisamos estar presentes naquilo que estamos fazendo. Como você pode pensar em formas alternativas para solucionar seus problemas, se está pensando em outra coisa? Também é preciso exercitar a sensibilidade diante da vida e dos desafios. Deixarmo-nos tocar pelos problemas e colocar luz diante das encruzilhadas.

Um processo de criação é como o preparo de uma comida. Precisamos estar ali, presentes, dedicando tempo, experimentando, mexendo, cozinhando e precisamos de fogo, de desejo, para produzirmos algo que irá nos alimentar. Criatividade é isso, é alimento para a nossa alma.

Portanto, pense comigo, como você pode fazer diferente?

Texto originalmente publicado no jornal Folha do Oeste de 12/08/16.

 

|Sobre meus tropeços e caminhos profissionais|

Sobre meus tropeços e caminhos profissionais

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Nos últimos dias, após comentar no blog sobre a minha vida regressa no Direito, recebi vááááários comentários de pessoas compartilhando suas dúvidas nas atuais vidas profissionais ou contando sobre mudanças que promoveram nas suas escolhas nesse sentido. Uma até comentou que fui grande influenciadora numa mudança que ela fez do curso da faculdade e eu fiquei muito feliz com essa notícia.

Confesso que há algum tempo, ando avessa com essas teorias do “querer é poder”, porque acredito sim num potencial existente em todas as pessoas, mas também sei que existem contextos e contextos de vida e um milhão de emaranhados complexos que muitas vezes nos impedem de alcançar aquilo que desejamos. Sim, emaranhados passíveis de dissolução, mas não apenas com uma dancinha motivadora ou uma frase de impacto numa fonte bonita. Demandas que exigem tempo, dedicação, terapia…enfim, questões muito mais profundas do que uma simples falta de vontade ou procrastinação.

Tendo feito essa introdução e frisado o cuidado que procuro ter com as histórias de cada leitor (não acredito na transposição de modelos, do tipo, funcionou para mim, funcionará para você) posso contar um pouco mais da minha própria história. Do caminho que eu trilhei e que sigo trilhando na busca por encontrar os meus propósitos e estar cada vez mais próxima do que eu escolho ser e fazer. Ah, também só preciso dizer que hoje (EU!!!!) não acredito em essência, na busca por ser “eu mesma”, porque não acredito que exista um eu lá dentro, um buraco aonde estão todos os meus valores e princípios esperando que eu os acesse através de muita meditação e autoconhecimento. Acredito que fomos estruturados de alguma forma na infância, através das expectativas que foram colocadas em nós, da convivência com as pessoas mais próximas, das histórias que ouvimos dos nossos antepassadas e inundados da lógica como acontecia a dinâmica ao nosso redor, e que dessa forma, fomos nos apropriando de algumas características que nos tornam quem somos agora. Posso ser um pouco extrema, mas hoje não acredito mesmo que nascemos com qualquer bagagem, porque penso que isso essencializa certas características, nos cristaliza e nos dá a ideia de que, de alguma forma, precisamos encontrar lá dentro o lugar aonde moram todas as nossas respostas. Sim, acredito no poder do silêncio e de que devemos nos ouvir para fazer as escolhas que precisamos, mas não acho que essa voz vem de um EU que sempre esteve lá, mas um EU que foi sendo construído e que vai se modificando a cada dia. Atualmente, é nessa fluidez que acredito e numa atenção aos discursos que nos atravessam e numa reflexão do porquê pensamos de determinadas maneiras. Não penso que existam respostas prontas e fáceis, mas acho que vale essa auto reflexão, que deve acontecer não só no silêncio e no descolamento do externo, mas implicada nas dinâmicas que nos influenciaram e nos atravessaram durante a vida. Meu maior exercício hoje vem sendo colocar todas as minhas convicções e gostos em perspectiva. Desde os mais complexos (“em quais pensamentos ainda sou racista e machista?”, por exemplo) aos mais simples (“por que o tamanho dos meus seios me incomoda tanto?”). Procuro não ir para extremos, mas problematizar mesmo meus questionamentos. Não me acho melhor que ninguém por isso e nem acho que essa problematização seja necessária à todos, mas eu Juliana me sinto muito mais satisfeita fundando as minhas escolhas e convicções (depois de ler opiniões direitas, esquerdas, religiosas…) depois de um tempo pensando sobre elas e não agindo na “onda do momento”.

Agora voltando a ideia inicial desse texto (essa introdução já dava um único post).

Já contei os meus caminhos profissionais algumas vezes nos meus blogs antigos, mas como esse é novo e hoje sou outra Juliana contando, resolvi recontar a história por aqui. E também, apesar de saber que algumas pessoas me acompanham desde 2012, acho que a maioria é recente e nem faz ideia sobre tudo o que eu escrevia antes.

Eu sempre curti escrever. Acho que por uma influência da minha mãe, escrevia e como nos tornamos melhores naquilo que praticamos mais, fui aprimorando e desenvolvendo a minha escrita. Porém, nunca pensei que fosse possível aliar o que então era um hobbie à uma escolha profissional. Até cheguei a pensar em cursar Jornalismo, mas como era super influenciada pela opinião dos meus pais (em especial do meu pai), que trabalhavam num ramo completamente diferente, desisti da ideia e passei para o Direito (que possuía possíveis áreas de encaixes com o negócio familiar). Direito porque também sempre fui muito questionadora e cheia de argumentos e a facilidade em escrever também seria útil nessa área. Enfim, aos 17 anos ingressei no curso.

Só um parênteses aqui. Hoje não acho “bom ou ruim” essa influência dos meus pais. Acho que eles deram o seu melhor, me transmitiram aquilo que acreditaram e aceitar (ou não), foi a escolha que eu fiz com 17 anos. Acho super normal os pais influenciarem (direta ou indiretamente) as escolhas dos filhos e essa suposta sucessão de lugares, bens e posições é bem comum. Tipo: “suei para conquistar tudo isso, portanto, nada mais fácil e óbvio do que meus filhos continuarem”. Assim, não perco mais o meu tempo lamentando não ter cursado Jornalismo ou ter passado 5 anos cursando algo que acabei não praticando nem por 1 semana. Juro que hoje enxergo tudo o que aconteceu até aqui como uma espécie de sequência de acontecimentos responsáveis pelo estado em que me encontro hoje. Entendem? Os erros e os acertos me trouxeram aqui e isso é o que hoje me importa.

O mais engraçado é que durante os 5 anos em que cursei Direito, NUNCA pensei em desistir. Inclusive, fui uma aluna muito dedicada, participativa e engajada durante todo o curso. Dentro do Direito, acabei me identificando com á área de Família e Sucessões (que tratam de herança e tal), mas de novo, escolhi me deixar conduzir por um ideal de sucesso e de trabalho que tinham mais proximidade com o negócio da família e segui por outros caminhos.

Vejam bem, respeito quem escolhe uma carreira pelo glamour, pelo poder e para bancar uma vida luxuosa. Mas essa, de verdade, não era eu. Acho que fui me envolvendo com esses ideais, me deixando seduzir pelos títulos, roupas alinhadas, mas com o tempo, fui percebendo que aquilo não era pra mim.

Durante a primeira metade do curso, trabalhei com o meu pai. Ele me oferecia um horário flexível e um bom salário e aquela acomodação me seduzia. Porém, queria muito estagiar na área e assim que voltei de uma temporada nos EUA, comecei estágio no fórum e assim segui, até me formar.

No final de 2008, me formei em Direito com boas notas, 10 no TCC e ainda fui oradora da formatura (escrevi metade do discurso). Nesse momento, queria muito morar fora e como meu pai não andava de avião e não me queria longe, o máximo que consegui, foi morar em São Paulo (minha mãe me apoiava a morar no exterior e até foi numa feira comigo). Claro que para sair de casa, arranjei uma excelente justificativa: uma pós graduação em Direito Tributário na PUC (essa área era super promissora). Em fevereiro de 2009, segui para São Paulo. Hoje consigo perceber que odiei a área e que por puro boicote, não passei na OAB. Nas primeiras férias da pós, vim para Floripa e engravidei do meu então, namorado.

Minha mãe ficou um pouco chateada quando contei, porque ela sabia que filhos geralmente “sobram” para suas mães e eu recém ia iniciar minha carreira profissional (claro que depois ela amou a notícia), mas meu pai ficou muito feliz, porque além de ganhar um neto, aquele era um motivo perfeito para eu ficar na cidade e trabalhar nos negócios da família. E foi o que eu fiz, sem grandes resistências, até 2012.

No começo de 2012, minha mãe sugeriu que eu voltasse para a terapia. Eu me sentia, aparentemente, bem, mas ela disse que como seria um ano importante para mim (eu casaria oficialmente em outubro), seria legal eu voltar para a terapia e ela tinha uma ótima indicação. Hoje consigo perceber que em vários aspectos eu não estava bem. Tinha crises horrorosas de enxaqueca (até aquele momento já tinha feito dois tratamentos), estava bem acima do peso e constantemente tinha crises existenciais. Aliás, até 2012, seguido, eu tinha crises de choro e de tristeza profunda. Já era meio que uma característica minha. Me sentia triste e passava um dia inteiro chorando. Pode parecer que era uma frescura ou coisa do meu signo (sou canceriana), mas me sentia mal mesmo e não conseguia fazer nada.

Assim, em março de 2012 voltei para a terapia e a partir dali, minha vida deu um giro de 360º. Voltei para a psicoterapia individual, mergulhei no livro “Co-dependência nunca mais” (indicado pela minha psicóloga depois de todos os ” meu pai” que ela ouvia nas minhas falas) numa viagem bem intensa que fiz de carro, constelei o tema que me incomodava (que envolvia a tristeza como minha fiel companheira), meus pais se separaram, eu iniciei a terapia em grupo (do livro “Mulheres que correm com os lobos) e no segundo semestre, iniciei um processo de coaching que foi fundamental na escolha por iniciar o curso de Psicologia.

Mas não pensem que 2012 foi um ano fácil. Acho até que foi o ano mais difícil da minha vida. Precisei colocar MUITA coisa para fora, tirar a sujeira de baixo do tapete e externalizar todas as minhas insatisfações e desejos. Meu casamento ficou por um fio, a separação dos meus pais foi bem dolorosa e no meio disso tudo, eu estava organizando a nossa festa de casamento.

Chorei MUITO, sofri MUITO, briguei MUITO…

Como surgiu a escolha pela Psicologia no meio disso tudo? No ano de 2012, escrevi muito. Por conta de todos os processos de autoconhecimento, organizava meus pensamentos escrevendo no blog. Escrevia sobre minhas descobertas na psicoterapia, nas Lobas (terapia em grupo), no coaching…mas sentia que apenas reproduzia as reflexões alheias e comecei a sentir vontade de mais e mais e mais. Assim, durante meu processo de coaching, que durou bastante tempo e ao qual me entreguei bastante (fazia todos os deveres e tal), cheguei à ideia de cursar Psicologia. Gostava de escrever, vinha gostando muito de escrever sobre a vida, sobre as pessoas e seus dilemas, mas queria aprofundar meu conhecimento e tornar aquilo meu caminho profissional.

No verão entre 2012 e 2013, mesmo já matriculada em Psicologia, vivi um período bem complicado. E em 2013, a situação não se alterou muito, principalmente, no primeiro semestre. Porque eu estudava de manhã e à tarde, trabalhava no negócio da família (todos lá em casa, inclusive, meu marido trabalham juntos). Meu pai ainda não reconhecia a minha entrada no curso e a nossa família, que segundo a minha psicóloga, era simbiótica, começava a lidar com uma nova realidade (meus pais separados e eu manifestando um desejo de seguir por outros caminhos).

Enfim, sem entrar em detalhes, em 2013 minha vida começou a fluir mais em direção aos meus objetivos profissionais (foi quando eu iniciei o blog Psicologando). Parei de trabalhar à tarde e fiquei só estudando de manhã, mas para isso, precisei negociar com os meus pais e comigo mesma.

Aliás, esse é um ponto que eu já queria mesmo escrever aqui. Não como uma satisfação, mas para compartilhar como nossas escolhas também envolvem renúncias.

Eu comecei a faculdade e continuei trabalhando no período da tarde, mas não consegui levar assim por muito tempo porque não conseguia estudar (ou sentir prazer nisso), a cada dia, gostava menos do que fazia (trabalhava num setor financeiro) e não tinha tempo para mais nada (filho, marido, casa, meu corpo…). Sim, eu sei que essa é a realidade de muitas pessoas, mas eu sabia que não precisava ser a minha. Compreendo a multiplicidade de contextos, mas aprendi a respeitar e aceitar o meu, sem vergonha (isso demorou muitos anos, confesso).

O fato era que eu precisava escolher se bancaria essa dependência financeira por um tempo, até terminar a faculdade e começar a trabalhar naquilo que eu gosto, ou continuaria trabalhando com o que eu não gostava para ser uma assalariada e “merecedora” daquele dinheiro no final do mês. Não vou dizer que essa escolha foi fácil e rápida. Demorou mais de um ano para eu sentar com os meus pais e dizer, com todas as palavras, que precisava daquela quantia mensal sem trabalhar, efetivamente (só meu marido não daria conta). Acho que toda nossa família foi vivendo esse processo de entender que eu não era feliz em nenhum dos ambientes da empresa da nossa família. Sou a filha mais velha, de pais que batalharam MUUUUUITO para chegar aonde chegaram e que nunca tiveram a possibilidade de escolher, de mudar de direção, de não trabalhar…entendem? Sempre houve muita cobrança, direta e indireta, para que eu sucedesse e ocupasse aquele lugar. Eu também sofri bastante para me apropriar da minha realidade. Tinha quase 30 anos e ainda dependia financeiramente dos meus pais. Hoje falo MUITO DE BOA sobre isso, mas demorou bastante para lapidarmos essa relação. Ninguém hoje finge que eu trabalho ou que um dia eu voltarei a trabalhar…eu não tenho mais receio de piadinhas por parte do meu pai ou vergonha de dispor do meu tempo “livre”. Meus pais, principalmente meu pai, precisou também de tempo para transformar suas convicções. De entender que se ele queria uma filha feliz, precisava entender também que ela não seria feliz trabalhando com o que não gostava. Sempre fui muito criativa, e todos sempre exaltaram isso, mas na hora do vamos ver, essa minha característica era deixada de lado.

Hoje o que eu percebo dos meus pais, e que meu pai fala bastante, é que eles trabalharam muito a vida inteira – meu pai se tornou um pai presente na minha adolescência – então, se eles não puderem utilizar aquilo que conquistaram para auxiliarem as suas filhas, ele não faz muito sentido.

Sou MUITO grata ao trabalho dos meus pais. Afinal, foi ele que me sustentou e me sustenta até hoje. Mas aprendi que até sou herdeira (até porque só falamos em herança, quando alguém morre), mas não preciso ser sucessora.

Nossa, o texto ficou muito longo, mas quis recontar o caminho (até para não esquecer).

De novo, repito o que escrevi lá em cima. Essa é só a minha história, com características bem singulares. Cada um tem a sua.

Não me acho uma heroína porque acredito que por mais que tenha havido uma superação e uma saída de um lugar “cômodo”, eu tinha milhares de facilidades e pais maravilhosos. Conheço amigas que passam necessidades porque seus pais se negam a ajuda-las, por exemplo. Sei lá, cada um com a sua história, mas eu não acho que por regra, precisamos aprender as coisas com muito sacrifício. Se eu puder ajudar os meus filhos num momento em que eles necessitarem, farei com o maior prazer. Ainda mais, que é o caso dos meus pais, quando posso, sem que essa ajuda me falte depois.

De verdade, hoje não tenho vergonha de contar isso. De coração, mesmo. Sei que algumas pessoas devem me julgar, me considerar acomodada ou preguiçosa, mas eu sei (e se não sei, é em terapia que descobrirei) que essa foi uma escolha que eu quis fazer. Com essa ajuda, pude continuar com meu sonho de voltar para a faculdade e pude estar mais presente criando e cuidando dos meus filhos. Esse é outro ponto bem relevante: os meus filhos. Meu pais amam muito os seus netos e sabem como é importante essa fase deles e como a minha vida já é corrida dando conta de todas as demandas. Então, me ajudam ainda com mais prazer.

Procuro não me acomodar e da minha maneira, busco ir me organizando em direção ao meu futuro profissional. Depois de muita terapia, transformei minha relação com o dinheiro (e ainda continuo) e venho pensando qual futuro desejo ter e qual pretendemos transmitir aos nossos filhos. Porque apesar de vivermos uma vida confortável, perto da maioria da população, estamos o tempo todo diferenciando a condição dos nossos pais e a nossa. Isso cabe no nosso orçamento? Isso caberia no nosso futuro orçamento, quando eu estiver iniciando uma carreira? Para os meninos, procuro mostrar que eles podem aproveitar os benefícios oferecidos pelos avós. Não vou privar meus pais e meus sogros de proporcionarem prazeres aos seus netos (coisa que não puderem fazer com os seus filhos), mas estou o tempo todo falando em valores não financeiros, promovendo eventos que não envolvam dinheiro, ressaltando a importância da presença e não do presente.

E assim eu sigo…seguimos…

Aprendendo (com sofrimento ou não), aprimorando nossa relação familiar (quem nos conhece sabe como somos todos MUITO ligados e como precisamos organizar toda essa simbiose) e nos amando.

Almejo muito minha dependência financeira (acho que também não conseguiria depender de marido, mas isso é assunto para outro post) e irei alcança-la, mas para que ela venha sem esforço (no sentido de envolver carga emocional), sem desavenças familiares, sem doenças psicossomáticas, é assim que ela vai acontecendo.

E ah, parece que foi ontem que ainda demoraria 5 A-N-O-S para eu me formar e agora já passei da metade do curso (e ainda tranquei um ano inteiro). O tempo ia passar de qualquer forma e que bom que passou da melhor forma.

Aguardem as cenas dos próximos capítulos…

Beijos