Me demito ou sobre a maternidade performática

Me demito ou sobre a maternidade performática

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A foto é um registro de um desses dias em que eu ainda não tinha me demitido.

Não costumo ser uma pessoa muito encanada com as minhas escolhas ou alguém que se deixa abater pelas cobranças sociais e que tenta sempre ocupar um papel de modelo de alguma coisa. Sinto que procuro ser, até o contrário disso. Alguém que gosta de compartilhar o lado B dos papéis que cumpro e de exibir (claro, não sem receio) as minhas fraquezas e limitações.

Então, que dia desses, ao terminar mais um dia exaustivo, aonde precisei atender às inúmeras demandas (imediatas!!!) de dois filhos e uma casa, olhei para mim mesma e me demiti. Sim, senti um impulso de manifestar minha insatisfação com tantas tentativas cruzadas (e frustradas) de ser a melhor mãe. Por conta do período de férias dos meus dois filhos, me vi numa fase bem complicada. Só um exemplo dessas tentativas cruzadas: eu me olhava no espelho e não gostava do que via, mas ao mesmo tempo, estava SEMPRE com tanta dor no corpo, que não me animava para fazer exercício físico. Aí decidia que mudaria meus hábitos alimentares e até conseguia em algumas refeições, mas tinha dias em que eu só queria pedir uma pizza, até lembrar que obviamente, a pizza viria cheia de gordura saturada, trans, glúten, embutidos e lactose. Uma alternativa seria sair para comprar ingredientes saudáveis para um jantar funcional, mas logo desanimava porque eu iria sozinha ao mercado na praia com duas crianças. Aí que eu me sentia culpada por não conseguir fazer programações que incluíam meus filhos. Nossa, eu não estava dando conta!

Como eu disse no começo, não costumo ser aquela mãe e/ou mulher que tenta bancar um modelo de maternidade ou existência perfeita, mas por vezes, se me distraio e engato no automático, quando percebo, já estou equilibrando mais bandejas do que eu quero ou consigo. É a famosa frase, que tenho no meu escritório: you can do anything, but not everything. Podemos fazer determinadas escolhas sobre aquilo que queremos ser ou fazer, mas com tantas possibilidades, nos perdemos e queremos fazer e ser TUDO, ao mesmo tempo.

Assim, eu decidi me demitir cargo de tentar ser uma super mãe. Não estou dando conta de ser a mãe fit, a mãe sarada, a mãe orgânica, a mãe BLW, a mãe que manda lancheira igual a da filha da Bela Gil, a mãe que incentiva a criatividade e deixa pintar as paredes, a mãe alternativa, a mãe mindfullness, a mãe homeopática, a mãe alheia à tecnologia, a mãe que se comunica de forma não violenta, a mãe do consumo consciente, a mãe que medita, a mãe sustentável e ecológica, a mãe livre demanda, a mãe do desmame gentil, a mãe que senta e brinca, enquanto existem um milhão de coisas para serem feitas, a mãe que não tem cara de mãe, a mãe que parece irmã, a mãe que ainda é a super esposa, a super funcionária e a super amiga.

Para que a minha maternidade não se torne uma prisão, da onde eu só tenha vontade de fugir, prometo ser a mãe possível, a melhor mãe que eu posso ser naquele momento.

Para as desavisadas, que pensam que estou surtada (talvez, eu esteja, vá saber), aviso que essa demissão é uma espécie de brincadeira, porque na minha realidade, depois de muita terapia e processos de auto observação, não me dou ao trabalho de tentar ser nem três das mães que enumerei (pelo menos, não ao mesmo tempo). Apenas reuni tudo o que eu já ouvi durante esses quase sete anos sendo mãe e depois de conversar com muitas delas.

Só eu sinto que a maternidade anda meio performática? Ao invés, de a exercermos da forma mais leve, prazerosa e pessoal possível, temos uma necessidade de praticar todas as novas “tendências de maternar” e ainda, atuar diante dos outros. Claro que, muitas vezes, fazemos isso na busca de sermos uma mãe melhor para a nossa filha ou filho e eu não acho isso de todo ruim, o problema é quando a busca por ser uma versão melhor, torna-se uma obrigação, que vira uma frustração e por fim, uma punição.

Se eu pudesse dar apenas uma dica para as mães que também se reconhecem demasiadamente humanas, como eu, seria a de escolher as alternativas e possibilidades que sejam importantes para você e sua família e se alinhar à elas. Parece simples, mas não é. Parece impossível, mas não é também.

O bom é que de quebra, ao exercitarmos esse processo de aceitação de uma maternidade possível, além da leveza que passamos a sentir, ao nos liberarmos de todas essas cobranças e expectativas, automaticamente, estaremos liberando nosso filho ou filha, também. Porque se nos cobramos em ser a melhor mãe do play é porque esperamos algo das nossas filhas e filhos.

Também não custa lembrar que não devemos julgar outras mães (como eu também faço, sem hipocrisia), porque elas estão passando pelos mesmos desafios que nós. Todas as mães em algum momento (ou em vários ou em todos) vão vacilar com o que consideram “ideal”. E sabem o que mais? TUDO BEM.

Portanto, continuarei na tentativa de ser a melhor mãe possível, de acordo com o que é importante para mim, mas da tentativa de ser a mãe performática, que ainda termina um dia morrendo de vontade de ir pra cama com o marido (sorry marido), eu me demito.

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|SER MÃE é dança, é poesia de amor|

Essa semana, recebi dois recados de leitoras que mencionaram alguns dos meus textos antigos que as ajudaram, de alguma forma. Por isso, resolvi reler alguns para (re)postar por aqui. A maioria não faz mais tanto sentido hoje, porque a cada dia, vou me desconstruindo, mas os que ainda conversam com meus princípios atuais, aparecerão novamente no blog. Começando por esse…

|Ser mãe é dança, é poesia de amor|

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E, então, descobri que eu sou porque eles são. Não que eu viva a minha vida para eles, porque não abro mão de um tempo para mim, mas descobri que por conta deles, tornei-me uma pessoa melhor.

Hoje enxergo a maternidade como um convite da vida para dançarmos. Primeiro nos preparamos, sonhamos, planejamos e treinamos. Num momento, sentimo-nos mais do que prontas, em outro, aquele frio na barriga nos invade e questionamos a nossa capacidade de lidar com aquela situação. Mas não há muito tempo para questionamentos. Certo dia, a natureza nos enxerga mães e nos coloca em cima do palco. Por alguns momentos seremos protagonistas da maior beleza da vida, a transformação de um corpo em dois.

A partir desse instante, somos convidadas a amadurecer, a colocar nosso ego no seu devido lugar e a aprender o verdadeiro significado de doação e amor incondicional. Porque amamos aquela continuação sem qualquer condição ou motivo explicável. Apenas amamos. Um amor que de tão grande, dói, que de tão imenso, transborda. E sorrimos e choramos e nos sentimos perdidas imersas em tanta intensidade. Descobrimos que nada poderia nos preparar melhor do que vivenciar aquilo, ao vivo e a cores. Descobrimos também porque comparam mães com leoas e com polvos. Defenderíamos aquele pequeno ser de uma tropa inteira e carregamos muito mais sacolas do que poderíamos imaginar.

Ser mãe é uma poesia de amor, escrita em contrastantes linhas doces e traços firmes, que escrevemos dia após dia. Entre tropeços e acertos, entre lágrimas de cansaço e risadas bobas, entre a vontade de dar uma volta sozinha e a dor de precisarmos ficar longe por cinco minutos. Ser mãe é ser incoerente e controversa. É, num segundo, ser a mais forte e no outro, a mais sensível. Contemos o choro ao presenciarmos o sofrimento dos filhos e depois, entregamo-nos com o mais banguela dos sorrisos.

Ser mãe é querer acertar, mesmo achando que só está errando. É transmutar do papel de filha para o de mãe. É entender a sua mãe mais do que nunca e a perdoar por tudo aquilo que um dia a condenou. É, mesmo sem perceber ou reconhecer, mais aprender do que ensinar. Porque mesmo já adultas, terminamos de crescer em sintonia com os nossos filhos. Por nos sabermos exemplos, procuramos evoluir, por precisarmos de respostas, saímos em busca das mesmas.

Ser mãe é dar o melhor de si, mesmo sem acreditar que esse tanto é o suficiente. É nunca mais planejar nada, sem primeiro pensar nos filhos. E tudo bem. Ser mãe é esbarrar consigo mesma, com as suas sombras e belezas, enquanto caminha pelo desenvolvimento do seu bem mais precioso. É buscar o equilíbrio mesmo em meio ao caos. É viver constantemente em outra dimensão e precisar ter os dois pés no chão. É se acostumar com imprevistos, é ver o seu coração começando a dar os primeiros passos e desde então, preparar-se para o dia em que ele baterá suas asas.

Ser mãe é se dar, se doar, se doer.

Ser mãe é SER, com toda a sua força, mãe.

Finalmente, 30!

Finalmente, 30.

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Foto tirada pela minha mãe no sábado.

Como desde sempre prefiro conviver com pessoas com mais idade do que eu (nada velhas) – o que só se acentuou quando me tornei mãe aos 23 – ansiava por dizer que tenho 30.
30!
30 para dar razão a toda a bagagem de vida que trago comigo. Uma faculdade, um relacionamento de 7 anos, um filho de 6, uma segunda faculdade e um filho de 1. Um milhão de Julianas e suas versões.

Chego aos 30 com bagagem, mas nenhuma necessidade de me definir. Se um dia busquei construir uma identidade, hoje só tenho a certeza de que não tenho certeza de nada. Ao invés de me cristalizar, só penso em fluir, em me desconstruir e desapegar. Só não desapego da família – a de origem e a que formei. Ah, a minha família. Desde criança, sonhava em formar uma. Na adolescência, dizia que gostaria de fechar os olhos e já estar mais velha, com meu marido e filhos. Hoje fecho os olhos e quando abro, lá estão meus meninos e meu companheiro da vida. Porém, apesar de ter sonhado, nem nos meus melhores sonhos, imaginaria tudo tão perfeito. Não perfeito de perfeito, mas perfeito de acordo com os meus desejos e depois de muitos desafios, abdicações e acertos. E assim, seguimos…na perfeição das nossas imperfeições.

Aos 30, me olho no espelho e gosto do que vejo. Estou longe de ser o que pedem os padrões surreais de beleza e apesar de, vira e mexe, me distrair e tentar segui-los, gosto do meu corpo. Um corpo que já vivenciou uma infinidade de experiências. Dores e amores, saltos e tropeços, quedas e renascimentos. Um corpo que já atuou, já dançou, já amou, já sofreu. Um corpo que vibra e que se deixa tocar por aquilo que vive.

Um corpo que me permitiu ser mãe pela primeira vez. Que amamentou, produziu muito amor líquido, que cuidou, deu muito colo, ninou e carregou um bebê. Um corpo que sempre expressou meus exageros, minhas limitações, que adoece quando insisto em me calar e que não se separa da minha mente, como defendia Descartes. Um corpo que encontra o seu lugar nos braços daquele que me sustenta quando ameaço cair. Um corpo que me permitiu engravidar pela segunda vez, numa única tentativa. Que me possibilitou parir e renascer e amamentar e viver de novo na pele a intensidade da maternidade.

Peitos caídos, barriga positiva, bunda que denuncia minha preguiça e minha gula e joelhos problemáticos. Mas ainda é um corpo, e é o meu corpo. Meu corpo, que me sustenta e me acompanha há 30 anos.

Chego até aqui muito feliz. Conhecedora das minhas fraquezas, do que me tira o sono e me faz chorar. Consciente de que mesmo com todas as minhas inquietações e pendências, sou uma super privilegiada e abençoada. Grata, grata e grata. Apaixonada pelo movimento da vida e forte. Sensível às nuances da vida, mas forte.

Viajei o suficiente, porque meu lugar preferido no mundo é a minha casa. Gosto de estar entre os meus livros, meus papéis e ter um tempo só para mim. Me organizo, escrevendo e sempre foi assim. Tenho um milhão de pastas de textos datilografados, digitados e escritos à mão. Hoje, o bloco de notas do meu celular denuncia como eu preciso escorrer meus dilemas pelas pontas dos meus dedos. Também estou sempre lendo alguma coisa e em constante reflexão sobre as pessoas, a vida e meus posicionamentos diante dela.

Tenho poucas amigas, mas sempre sou muito entregue às minhas amizades. Acredito que a vida é aquilo que acontece durante os bons encontros.

Aprendi a escolher e aprendi a esperar. Entendi que minhas atitudes são políticas e a cada dia, procuro ser mais coerente com as minhas novas, e sempre revisitadas, ideologias.

Não pensei o que desejo daqui para frente, só tenho certeza de que não tenho grandes ambições materiais. Aliás, hoje meu maior exercício é selecionar o que me é essencial e adequar o meu exterior com o que pede o meu interior. Se é que existem exterior e interior, porque hoje acredito num fluxo constante entre o fora e o dentro, o dentro e o fora. Com 30, e não com 17 como foi da primeira vez, tenho cada vez mais certeza do caminho profissional que estou trilhando. Conhecendo sobre as pessoas, sobre nossas relações, sistemas e sobre mim.Encontrei meu lugar compartilhando uma parte da minha vida com outras pessoas e esse é um dos meus grandes combustíveis, atualmente.

Sigo apaixonada pelas minhas escolhas, pela minha família e por mim. Comprando mais livros do que irei ler, implicando com o meu culote, aprimorando meu feminismo, morrendo de calor e vestindo um pretinho básico.

Sem querer soar clichê, mas não gostaria de voltar no tempo.

Assumo meus infinitos cabelos brancos, minhas estrias e minhas poucas rugas, porque elas refletem aquilo que a soma dos anos me trouxeram de mais importante: maturidade, sabedoria e vivências.

30 anos!
30 voltas ao sol.
30 invernos.
30 mil motivos para estar muito feliz por chegar aqui.

E que venham mais 30!

(Achei que não encontraria tempo e inspiração para esse texto por conta das atuais demandas, mas ontem à noite sentei na cama e escrevi tudo no bloco de notas do celular. Que bom!).